Vídeo com críticas ao prefeito de Rondonópolis circula na internet, mas documentos obtidos pelo NMT mostram distorção dos fatos
Notificação oficial aponta irregularidade em calçada por parte de estabelecimento, sem qualquer apreensão de equipamentos de ambulante Foto: Reprodução - Redes Sociais
Um vídeo que passou a circular de forma tímida na internet em Rondonópolis colocou o prefeito Cláudio Ferreira no centro de críticas após um vendedor ambulante relatar, de forma emocionada, que teria tido seus equipamentos de trabalho retirados pela fiscalização municipal. Nas imagens, o homem, que se identifica como “Júnior do Peixe Assado”, afirma trabalhar há seis anos no local e acusa a gestão de impedir sua atividade, chegando a questionar se deveria “virar bandido” diante da situação.
O conteúdo começou a rodar em grupos e redes sociais com alcance ainda restrito, impulsionado pelo tom de desabafo e pela narrativa de suposta retirada do sustento de um trabalhador informal. No entanto, documentos obtidos pelo NMT – Notícias de Mato Grosso apresentam uma versão diferente dos fatos e indicam que o vídeo distorce o ocorrido.
A reportagem teve acesso à Notificação nº 2235/2026, emitida pela Prefeitura de Rondonópolis, que não faz qualquer menção a apreensão de equipamentos de ambulantes. O documento, datado de 20 de março de 2026, é direcionado à empresa responsável pelo imóvel — e não ao trabalhador que aparece no vídeo — e trata exclusivamente de irregularidades no uso do passeio público.
De acordo com a notificação, a infração registrada foi a ocupação indevida da calçada com “mesas, banquinhos, churrasqueira, etc.”, o que estaria prejudicando a circulação de pedestres e, principalmente, comprometendo o piso tátil de acessibilidade. A própria legislação citada no documento proíbe qualquer obstrução de vias públicas, prevendo penalidades em caso de descumprimento.
As imagens anexadas ao processo, também obtidas pela reportagem, reforçam a versão oficial ao mostrar estruturas fixas e móveis ocupando a calçada em frente ao estabelecimento, incluindo bancos de concreto e equipamentos utilizados na comercialização de alimentos, confirmando o cenário de obstrução parcial da via pública.
Outro ponto relevante é que a notificação estabelece prazo para regularização da situação, sem determinar apreensão imediata de bens. O documento menciona que medidas mais duras, como multa ou apreensão, só ocorreriam em caso de descumprimento posterior, o que reforça que a ação inicial teve caráter orientativo e preventivo.
A Prefeitura também sustenta que o proprietário da conveniência foi orientado a retirar as estruturas irregulares e a não ocupar a área de acessibilidade. Em relação à churrasqueira citada no vídeo, o próprio responsável pelo imóvel teria informado que o equipamento não lhe pertencia, sendo utilizado por terceiro, o que levou a orientação para que fosse retirada após o expediente.
Ainda segundo a administração, não houve qualquer abordagem direta ao ambulante, tampouco apreensão de equipamentos, e foi solicitado que o trabalhador procurasse os órgãos competentes para regularizar sua atividade por meio do Cadastro de Regularização de Atividade (CRA), garantindo assim a continuidade do trabalho dentro das normas.
O caso evidencia o contraste entre a narrativa apresentada no vídeo e os registros formais da fiscalização. Enquanto o relato expõe o drama de quem depende da informalidade para sobreviver, os documentos indicam que a ação do poder público teve foco no ordenamento urbano e no cumprimento das regras de acessibilidade, sem a medida extrema relatada pelo ambulante.
A situação deve seguir gerando debate na cidade, especialmente sobre os limites da fiscalização e a necessidade de políticas mais eficazes para conciliar organização urbana com a realidade de trabalhadores que dependem do espaço público para garantir o próprio sustento.






