Pivetta aperta o cerco sobre shows em MT em meio a investigações e suspeitas de lavagem de dinheiro
Nova regra limita recursos para eventos, prioriza saúde e ganha força diante de denúncias sobre cachês inflados e contratos sob investigação no estado Foto: Reprodução
A decisão do governador Otaviano Pivetta de endurecer as regras para uso de dinheiro público em shows e eventos ganha um peso ainda maior quando colocada dentro do cenário que hoje envolve o setor em Mato Grosso. Não se trata apenas de uma escolha administrativa ou de prioridade de governo. É uma resposta direta a um ambiente que, nos últimos anos, passou a conviver com denúncias recorrentes, suspeitas de irregularidades e operações policiais.
A nova regra aprovada pela Assembleia Legislativa muda o eixo das emendas impositivas. Metade dos recursos passa a ser obrigatoriamente destinada à saúde. A outra metade segue livre, mas com limite claro: apenas 10% desse montante poderá ser aplicado em festas e eventos. Na prática, o governo fecha o espaço que durante anos permitiu uma expansão descontrolada desse tipo de gasto.
Ao comentar o tema, Pivetta foi direto. Disse que não gosta de autorizar recursos para shows e que, diante das demandas básicas do Estado, esse tipo de despesa não faz sentido como prioridade. Não é só discurso. A mudança foi colocada na regra, reduzindo a margem de manobra política e impondo um freio que, até aqui, não existia de forma efetiva.
O pano de fundo dessa decisão ajuda a explicar o momento. O setor de eventos financiados com dinheiro público entrou no radar de órgãos de controle e das forças de segurança. Recentemente, uma operação policial com desdobramentos em Mato Grosso avançou sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo shows. Houve cumprimento de mandados, prisões e bloqueio de bens, com alvos inclusive em Barra do Garças e outras cidades do estado.
As investigações apontam para um modelo que, segundo apurações, pode ter sido utilizado para inflar contratos e dar aparência legal a recursos de origem duvidosa. Cachês acima do padrão de mercado quando pagos com dinheiro público, estruturas superfaturadas e uma cadeia de contratação difícil de rastrear são alguns dos pontos levantados.
De acordo com informações apuradas junto a fontes ligadas ao sistema de controle, pelo menos oito inquéritos conduzidos pelo Ministério Público seguem em andamento tratando desse tipo de prática. Nos bastidores, a avaliação é de que esse conjunto de investigações pode avançar e ganhar novos desdobramentos a qualquer momento, ampliando o alcance sobre contratos e agentes envolvidos nesse circuito.
Esse cenário não nasce agora. Há muito tempo circula, entre políticos e órgãos de fiscalização, a percepção de que existe uma diferença significativa entre o valor cobrado em apresentações privadas e o valor pago quando o contratante é o poder público. A conta, quase sempre, sobe — e sobe sem transparência suficiente para justificar.
Ao limitar o percentual de recursos que pode ser destinado a eventos, Pivetta atua diretamente sobre esse ponto. Reduz o volume de dinheiro disponível e, consequentemente, diminui o espaço onde essas distorções costumam aparecer.
Há também um outro fator que ajuda a entender por que a medida encontra eco até dentro da Assembleia. O padrão dos eventos saiu do controle. O que antes era uma grande atração por cidade virou uma disputa por grandiosidade. Não é raro ver quatro, cinco grandes duplas sertanejas reunidas em um único evento, elevando os custos a níveis difíceis de justificar.
A lógica passou a ser empilhar atrações. Mais nomes, mais cachê, mais estrutura. Um modelo que, além de caro, se distancia da justificativa pública de atender a população. Entre parlamentares, o assunto já virou motivo de crítica, ainda que muitas vezes restrita ao ambiente interno.
Pivetta também tratou de evitar ruptura imediata. O que já foi contratado será pago. Compromissos assumidos serão honrados. Mas, dali para frente, o cenário muda. A tendência, segundo o próprio governo, é que esse tipo de gasto se torne cada vez mais restrito.
Outro movimento importante foi tirar da mesa do governador a decisão direta sobre eventos. A análise passa a ser feita pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico, um colegiado técnico que assume a responsabilidade sobre a destinação dos recursos, reduzindo o peso político nas autorizações.
A medida mexe com interesses. Deputados passam a ter menos margem para investir em eventos nas suas bases. Prefeitos perdem um instrumento tradicional de visibilidade e mobilização. E o setor de shows, historicamente dependente desse tipo de recurso, vê o espaço encolher.
Por outro lado, o governo passa a ocupar uma posição que ganha força na percepção pública: a de quem enfrenta um problema que se tornou visível. Em um cenário de maior cobrança por transparência e responsabilidade, decisões como essa tendem a encontrar respaldo fora do meio político.
Ao mirar um dos pontos mais sensíveis do gasto público e fazer isso no momento em que o setor é alvo de investigações, Pivetta transforma uma mudança de regra em sinal claro de rumo. Mais do que limitar festa, a medida tenta colocar ordem em um ambiente onde, por muito tempo, sobrou dinheiro e faltou controle e que agora começa a ser exposto de forma mais ampla.






