Loja coloca manequins negros servindo brancos em vitrine e vira alvo do Ministério Público em São Paulo
Exposição de loja de vestidos de festa provocou denúncias de discriminação racial; especialistas apontam reprodução de estereótipos ligados à escravidão, enquanto empresa nega intenção racista e afirma ter modificado a vitrine Foto: Paulo Alves/Arquivo pessoal
A situação envolve a loja Arthur Caliman e ganhou repercussão nesta quarta-feira (4). Na montagem, os manequins negros apareciam utilizando aventais e posicionados como se estivessem prestando serviços, enquanto os manequins brancos vestiam roupas de festa, representando pessoas em um ambiente de celebração.
O que chamou a atenção foi a divisão dos papéis atribuídos aos bonecos. Enquanto os negros eram apresentados exclusivamente em funções de atendimento, os brancos ocupavam posições associadas ao luxo e ao prestígio social. Não havia manequins negros representados como convidados, nem manequins brancos desempenhando funções de serviço.
A composição provocou críticas por reproduzir uma imagem historicamente associada à escravidão e à subordinação da população negra.
Ministério Público recebe representação
A representação foi protocolada na terça-feira (3) e encaminhada à Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos, na área de Inclusão Social, do Ministério Público de São Paulo.
O objetivo é avaliar se a exposição apresenta elementos de discriminação racial que justifiquem a adoção de medidas legais.
O advogado Hédio Silva Jr., fundador da organização Jusracial, criticou a disposição dos manequins e avaliou que a montagem reproduz uma associação histórica entre pessoas negras e posições de inferioridade social.
Para o especialista, a exposição reforça estereótipos raciais ao reservar aos manequins negros o papel de servir, enquanto os brancos são apresentados como pessoas que desfrutam de ambientes de luxo.
A diretora executiva do Observatório da Branquitude, Manuela Thamani, também criticou a composição. Segundo ela, a vitrine reproduz uma hierarquia racial presente na sociedade brasileira desde o período escravocrata, ao associar pessoas brancas ao prestígio e pessoas negras ao trabalho subordinado.
A entidade acompanha a representação apresentada ao Ministério Público.
Loja nega racismo e altera vitrine
Após a repercussão, a Arthur Caliman se manifestou e negou que a exposição tivesse qualquer intenção discriminatória.
Segundo a empresa, a escolha dos manequins faz parte de uma estratégia estética que busca valorizar o contraste entre as cores dos bonecos e das roupas apresentadas.
A loja explicou que a montagem utilizava manequins pretos com roupas claras e um manequim branco vestido com uma peça azul-escura. Também afirmou que uma vitrine anterior havia sido composta exclusivamente por manequins pretos utilizando vestidos claros.
Em seu posicionamento, a empresa declarou que jamais teve a intenção de transmitir uma mensagem racial e reforçou que repudia qualquer manifestação de racismo ou discriminação.
O estabelecimento também lamentou o desconforto provocado pela exposição e informou que substituiu o manequim questionado após ser procurado pela imprensa.
Caso reacende debate sobre racismo na publicidade
A polêmica levantou discussões sobre a responsabilidade de empresas na construção de campanhas publicitárias e na representação de diferentes grupos raciais.
Especialistas destacam que a utilização de imagens e personagens em posições socialmente distintas pode reforçar preconceitos históricos, mesmo quando não existe uma intenção declarada de discriminar.
No caso da vitrine, o principal questionamento não está na utilização de manequins de cores diferentes, mas na escolha de representar exclusivamente os negros como trabalhadores que servem pessoas brancas.
Até esta quarta-feira (4), não havia informação de decisão judicial ou responsabilização da empresa. O caso permanece na esfera de análise do Ministério Público, que poderá avaliar a necessidade de novas providências.
A loja sustenta que a composição tinha finalidade exclusivamente estética e nega qualquer intenção racista.





