• 2 de maio de 2026
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BASTIDORES

O homem que governou doze anos e descobriu os problemas da cidade no podcast

Zé do Pátio voltou aos microfones para falar que Rondonópolis está destruída. Só esqueceu de explicar quem estava no comando quando a UPA passou oito anos sem reforma, a Coder acumulou R$ 262 milhões em dívidas e a escola com o nome do pai dele foi inaugurada sem uma cadeira sequer.
Foto: Reprodução

Rondonópolis ganhou na semana passada mais um episódio de uma série que os bastidores políticos da cidade conhecem de cor: o ex-prefeito Zé do Pátio encontrou um microfone simpático, sentou confortavelmente diante de um apresentador que não faz perguntas difíceis e passou uma hora e quarenta minutos falando de um suposto caos que assola a cidade que ele mesmo governou por mais de doze anos. A performance foi impecável. O argumento, nem tanto.

O programa se chama Rondon Podcast. O apresentador é o Bispo Jefferson Oliveira, que abriu o espaço com a generosidade de um aliado e conduziu a conversa com o rigor jornalístico de uma festa de aniversário. Ao longo da entrevista, leu comentários favoráveis ao vivo, elogiou o entrevistado em diversas passagens, declarou que Zé é “pré-candidato a deputado estadual”  sem ser desmentido e chegou ao ponto de sugerir o slogan de campanha para a prefeitura em 2028: “Deixa que o Zé resolve.” Isso não é jornalismo. É palanque com fone de ouvido.

Mas o mais revelador não foi o que o apresentador fez. Foi o que Zé do Pátio disse e o que ele convenientemente esqueceu de mencionar.

Comecemos pela saúde, o tema que ele abordou com maior carga emocional. “Nosso povo tá órfão”, disse, com voz pausada e ar de preocupado. Reclamou da falta de especialistas, da ausência de política pública de saúde, do que chamou de “caos total”. O problema é que Rondonópolis teve prefeito por todo esse tempo. O mesmo prefeito. Durante doze anos, a Unidade de Pronto Atendimento do Jardim Santa Marta não passou por uma única reforma estrutural. Quando a gestão atual visitou a UPA pela primeira vez, uma servidora com 22 anos de casa ficou emocionada porque era a primeira vez que via um prefeito aparecer por lá. Vinte e dois anos. O Zé amoroso nunca foi.

Depois veio a Coder. Aqui, Zé chegou ao podcast com uma tese pronta: a dívida da empresa pública existe desde 1978, portanto é um problema histórico, não um problema seu. A lógica seria convincente se a auditoria da Controladoria Interna do Município, concluída em janeiro de 2025, não fosse tão inconveniente. O documento aponta que houve crescimento significativo das dívidas no último mandato da gestão municipal exatamente o período em que ele governava. O rombo chegou a R$ 262 milhões. Os trabalhadores da Coder nunca tiveram o FGTS depositado durante as gestões anteriores. Em dezembro de 2024, estavam há 53 dias sem salário. E a “tacada inteligente” de transformar a Coder em empresa pública da qual Zé se orgulha no podcast não impediu nada disso. Impediu, isso sim, que o município iniciasse 2025 com certidão negativa na Receita Federal, bloqueado de receber repasses federais logo nos primeiros dias da nova gestão. A herança não estava embrulhada para presente.

Mas é no campo da educação que a história ganha contornos quase literários. Zé atacou o atual prefeito por não ter entregado creches em quinze meses, afirmando que ele mesmo construía uma a cada três meses. O que não mencionou é que a Escola Municipal Altamirando de Araújo Miranda que leva o nome do seu próprio pai foi “inaugurada” por ele em dezembro de 2024, às vésperas de deixar o cargo, sem mobiliário e sem equipamentos. O prédio existia. Tudo dentro dele, não. A atual secretaria de Educação recebeu o prédio com “várias irregularidades, sem mobiliário e sem equipamentos”, conforme registrado oficialmente. Foi a gestão que ele critica que investiu R$ 16,7 milhões, equipou a unidade, regularizou a documentação e abriu as portas de verdade, em janeiro de 2026. E manteve o nome do pai. Porque às vezes a resposta mais eficaz não é um comunicado é a elegância silenciosa de concluir o que o outro não terminou.

No final do programa, depois de comparar-se a Tiradentes traído por Silvério dos Reis e a Cristo traído por Judas Iscariotes uma escalada bíblica e histórica que diz muito sobre a autopercepção do personagem, Zé deixou no ar o que todo mundo já esperava: está de volta. Deputado estadual em 2026, prefeitura em 2028. O apresentador aplaudiu. A militância comentou. A hashtag correu.

É um direito democrático legítimo. Mas há uma condição mínima para o discurso do “deixa que eu resolvo”: precisaria ter resolvido. A UPA sem reforma por oito anos é um fato. O rombo de R$ 262 milhões na Coder é um fato. A escola do pai inaugurada sem cadeira é um fato. Nenhum desses fatos foi mencionado no podcast. Nenhuma pergunta foi feita sobre eles. Isso não é por acaso é por escolha. A de um apresentador que preferiu o palanque à reportagem, e a de um ex-prefeito que descobriu ser mais fácil falar sobre o caos alheio do que explicar o próprio legado.

Rondonópolis tem eleições em 2028. E tem, também, auditoria. Os dois costumam aparecer na hora certa.

O homem que governou doze anos e descobriu os problemas da cidade no podcast

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