Quando a Política Vira Identidade
A pesquisa Quaest revela um país onde convicções resistem aos fatos e a verdade se torna um ato de resistência Foto:
Há pesquisas que medem intenção de voto. E há pesquisas que revelam o estado de espírito de um país. A Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 10 de junho, pertence à segunda categoria.
Mesmo diante de denúncias, desgastes políticos, investigações e episódios amplamente expostos pela imprensa, inclusive o caso Vorcaro, ligado a um pré-candidato identificado com a direita bolsonarista, o eleitorado não demonstrou rejeição definitiva. Os números mostram algo mais profundo do que simples preferência partidária. Revelam uma sociedade em que convicções já não se movem com facilidade, porque deixaram de ser apenas opiniões e passaram a funcionar como identidade.
É nesse ponto que a calcificação política se torna evidente. As posições endureceram. A intenção de voto oscila pouco, mesmo diante de fatos que, em outros momentos da história, poderiam alterar percepções e comportamentos. O debate público deixou de girar apenas em torno de projetos de país. Hoje ele envolve pertencimento, medo, lealdade e sobrevivência simbólica. Para muitos, adversários políticos deixaram de ser apenas opositores. Tornaram-se ameaças aos próprios valores e à visão de futuro.
Esse cenário nos leva a uma pergunta essencial. Como uma sociedade preserva a verdade quando o poder político tenta concentrar em si o controle do discurso público?
A resposta não começa nos governos nem nas instituições. Ela começa no indivíduo. Toda resistência ao autoritarismo nasce quando alguém se recusa a repetir aquilo que sabe ser falso. Uma sociedade permanece livre enquanto seus cidadãos mantêm um compromisso inegociável com a verdade, mesmo quando isso exige coragem, desconforto e enfrentamento.
Quem acredita na liberdade precisa compreender que a verdade depende dela para existir no espaço público. Investigar, questionar e expressar opiniões não são privilégios democráticos. São condições indispensáveis para a própria democracia. Por isso, toda forma de censura estatal exige vigilância permanente. Quando o poder decide quais ideias podem circular e quais devem ser silenciadas, denunciar abusos torna-se cada vez mais difícil, sobretudo quando esses abusos partem do próprio poder.
Mas liberdade sem responsabilidade perde legitimidade. O direito de falar deve caminhar ao lado da honestidade intelectual, do respeito aos fatos e da disposição de ouvir quem pensa diferente.
O maior risco das sociedades polarizadas não está apenas na divergência. Está na banalização da mentira. Regimes autoritários não sobrevivem apenas pela força. Eles prosperam quando pessoas comuns aceitam pequenas distorções da realidade, repetem versões convenientes dos fatos ou escolhem o silêncio diante do que reconhecem como errado.
Por isso, defender a verdade não é tarefa exclusiva de jornalistas, intelectuais ou instituições. É um dever coletivo. Quando a sociedade abandona a verdade, abre espaço para a manipulação. Quando a preserva, fortalece a liberdade. E, em tempos de polarização crescente, talvez a verdade continue sendo o mais simples e poderoso ato de resistência.
Ilson Galdino – Advogado e servidor público






