Vereadores de Primavera do Leste que criticaram a gastança de Lula agora evitam discutir os próprios privilégios
Enquanto a eleição antecipada da Mesa Diretora movimenta os bastidores da Câmara, diárias, verbas indenizatórias e benefícios pagos com dinheiro público ficam fora do centro das discussões. Foto: Reprodução
A política em Primavera do Leste está revelando uma contradição difícil de explicar ao eleitor. Vereadores que passaram a campanha eleitoral criticando o PT, condenando os gastos do governo Lula e prometendo responsabilidade com o dinheiro público agora parecem ter esquecido o próprio discurso. Quando a gastança acontece em Brasília, a indignação é grande. Mas, quando o assunto são as diárias, as verbas indenizatórias e as mordomias bancadas pelo contribuinte dentro da Câmara Municipal, a conversa muda completamente.
A antecipação da eleição da Mesa Diretora, prevista para o próximo dia 13 de novembro, escancarou uma disputa que deveria estar concentrada na apresentação de propostas para melhorar a administração do Legislativo. O próximo presidente será responsável por ordenar despesas, administrar milhões de reais do orçamento público e definir prioridades. Entretanto, nos bastidores, o que ganha espaço são as articulações políticas, os compromissos entre grupos e a preocupação com a continuidade dos benefícios que tornam o exercício do mandato bastante confortável.
O que deveria estar sendo discutido é justamente o contrário. Primavera do Leste precisa de uma Câmara mais econômica, transparente e comprometida com o uso responsável do dinheiro arrecadado da população. Os candidatos à presidência deveriam apresentar propostas concretas para reduzir despesas, rever os valores das diárias, estabelecer critérios mais rigorosos para as verbas indenizatórias e acabar com gastos que não apresentem resultados efetivos para o cidadão.
Mas esse debate parece não interessar a quem se acostumou com as facilidades proporcionadas pelo dinheiro público. É muito mais conveniente discutir quem ficará com a presidência, quem ocupará os demais cargos da Mesa Diretora e quais compromissos serão assumidos para garantir votos. A economia que poderia beneficiar a população acaba ficando em segundo plano.
A contradição fica ainda mais evidente quando se recorda o discurso eleitoral desses mesmos parlamentares. Lula era criticado pelos gastos do governo federal, o PT era apresentado como símbolo de desperdício e a responsabilidade fiscal aparecia como compromisso inegociável. Agora, quando existe a oportunidade de aplicar o mesmo rigor às despesas da Câmara, falta disposição para enfrentar o assunto.
Não é uma questão de defender Lula, o PT ou qualquer governo. É uma questão de coerência. Quem condena a gastança em Brasília não pode achar normal a manutenção de privilégios em Primavera do Leste. O dinheiro que paga uma diária de vereador sai do mesmo bolso do contribuinte que sustenta as despesas do governo federal. Para quem trabalha, paga impostos e enfrenta dificuldades para fechar as contas no fim do mês, não existe diferença entre desperdício municipal e desperdício federal.
A população acompanha incrédula esse espetáculo. Enquanto o cidadão precisa escolher quais despesas consegue pagar, seus representantes discutem a sucessão no comando da Câmara sem apresentar compromissos públicos de austeridade. E não estamos falando de uma instituição sem recursos. Estamos falando de um Legislativo que precisa justificar cada centavo gasto e demonstrar que suas despesas são compatíveis com os serviços prestados à sociedade.
As diárias e as verbas indenizatórias precisam ser colocadas sobre a mesa. Quanto cada vereador recebe? Quantas viagens são realizadas? Quais resultados concretos essas viagens trouxeram para Primavera do Leste? Quais despesas poderiam ser eliminadas ou reduzidas? São perguntas absolutamente legítimas, que deveriam ser respondidas com documentos, números e transparência, não com discursos ensaiados.
O comportamento diante das críticas também merece atenção. Quando alguém questiona os gastos da Câmara, a resposta deveria ser a apresentação de informações que justificassem a utilização dos recursos. Entretanto, em vez de enfrentar o conteúdo dos questionamentos, há quem prefira tentar desqualificar a opinião de quem cobra explicações. É uma estratégia antiga: quando falta disposição para discutir o problema, tenta-se desacreditar quem aponta sua existência.
Só que o dinheiro público não pertence aos vereadores. Não pertence ao presidente da Câmara e muito menos aos grupos políticos que disputam seu comando. Pertence à população de Primavera do Leste, que tem o direito de exigir uma administração econômica, eficiente e transparente.
A eleição antecipada da Mesa Diretora poderia ser uma oportunidade para mudar essa realidade. Bastaria que os candidatos assumissem compromissos objetivos com a redução de despesas, a revisão dos benefícios e a adoção de critérios mais rigorosos para o uso dos recursos públicos. Seria uma demonstração de respeito ao eleitor e, principalmente, de coerência com aquilo que foi prometido durante a campanha.
Mas, enquanto a preocupação estiver concentrada na preservação das vantagens oferecidas pelo mandato, o discurso de austeridade continuará servindo apenas para atacar adversários políticos.
O eleitor de Primavera do Leste não foi às urnas para trocar a gastança que tanto ouviu criticar por uma versão municipal do mesmo comportamento. Quem pediu votos prometendo responsabilidade com o dinheiro público precisa compreender que esse compromisso não termina depois da eleição.
Se gastar demais é errado quando Lula administra o dinheiro dos brasileiros, também é errado quando vereadores administram o dinheiro dos moradores de Primavera do Leste.
A diferença é que, em Brasília, esses parlamentares não têm poder para decidir sobre as despesas do governo federal. Na Câmara Municipal, têm. E é justamente onde podem dar o exemplo que deveriam começar a cortar privilégios, reduzir gastos e respeitar o suado dinheiro da população.





