Guilherme Maluf expõe liderança de Mato Grosso em casos de hanseníase e reforça ação do Tribunal de Contas no enfrentamento da doença
Presidente do TCE defende capacitação em massa de agentes de saúde e destaca articulação com Assembleia, Estado e União para conter avanço da hanseníase Foto: Reprodução
Mato Grosso, estado frequentemente associado ao agronegócio forte e à pujança econômica, convive com uma realidade que expõe fragilidades profundas na área da saúde pública. A constatação foi feita de forma direta pelo presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Guilherme Maluf, ao comentar a criação da Frente Parlamentar de Atenção à Hanseníase e o início da capacitação de agentes comunitários de saúde.
Ao tratar do tema, Maluf não suavizou o diagnóstico. Segundo ele, é constrangedor que um estado considerado rico lidere o número de casos de hanseníase no Brasil, enquanto o país ocupa a segunda posição no ranking mundial da doença, atrás apenas da Índia. Dados mais recentes da Secretaria de Estado de Saúde apontam que Mato Grosso registra, em média, mais de 3 mil novos casos por ano, mantendo uma das maiores taxas de detecção da doença no país.
“Algo que nos envergonha muito aqui no nosso estado, que é um estado dito rico, ser o maior número de pacientes com hanseníase do Brasil”, afirmou o conselheiro, ao reforçar a necessidade de ações mais efetivas e coordenadas.
A criação da Frente Parlamentar surge, nesse contexto, como uma tentativa de reorganizar a resposta do poder público. A iniciativa reúne Assembleia Legislativa, Secretaria de Estado de Saúde e Ministério da Saúde em uma estratégia conjunta, voltada principalmente à ampliação do diagnóstico precoce e ao tratamento adequado dos pacientes.
Com formação médica, Maluf destacou que o diferencial da nova política está na valorização dos agentes comunitários de saúde, que passam a ser vistos como peça central no combate à doença. Na avaliação dele, esse contingente, espalhado por todo o território estadual, tem capacidade real de transformar o cenário atual.
“Esse exército de agentes de saúde pode contribuir muito no combate a essa doença”, pontuou.
A base dessa mobilização não é recente. O próprio Tribunal de Contas já vinha tratando o tema desde 2024, quando aprovou, por unanimidade, uma nota recomendatória incentivando a criação da frente parlamentar. A medida, segundo Maluf, abriu caminho para a articulação política que agora começa a sair do papel.
O avanço mais concreto é o início da capacitação desses profissionais. A expectativa é que o programa alcance cerca de sete mil agentes em todo o estado, ampliando a capacidade de identificação de casos e reduzindo a subnotificação — um dos principais entraves históricos no enfrentamento da hanseníase.
Ao projetar os efeitos da iniciativa, Maluf demonstrou confiança de que a estratégia pode mudar o rumo dos indicadores, desde que haja continuidade e abrangência.
“Espero que isso se estenda aí para os quase 7 mil agentes de saúde que tem no estado de Mato Grosso. Isso trará uma força muito importante no combate à doença”, afirmou.
A hanseníase, apesar de curável e com tratamento disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ainda carrega estigma social e enfrenta barreiras relacionadas ao diagnóstico tardio. Em regiões como Mato Grosso, onde há grandes áreas rurais e dificuldade de acesso a serviços especializados, o papel dos agentes comunitários se torna ainda mais relevante.
O movimento agora iniciado coloca à prova a capacidade de articulação entre os diferentes níveis de governo e órgãos de controle. Mais do que criar estruturas ou lançar programas, o desafio será garantir que a política alcance, de fato, quem mais precisa e que o estado consiga, finalmente, reverter um indicador que, nas palavras do próprio presidente do TCE, já deveria ter deixado de fazer parte da sua realidade.






