Lúdio Cabral se licencia, abre espaço histórico para Eliane Xunakalo e dispara contra governo e Abílio em entrevista na ALMT
Deputado do PT fala sobre posse inédita de mulher indígena, crise no SAMU, fim da escala 6x1 e eleva o tom contra prefeito de Cuiabá durante conversa com a imprensa nesta quarta-feira Foto: Reprodução
O deputado estadual Lúdio Cabral (PT) concedeu entrevista à imprensa na tarde desta quarta-feira (15), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, em um momento que mistura simbolismo político, tensão na saúde pública e embates diretos com adversários. Ao anunciar sua licença do mandato, o parlamentar destacou o caráter histórico da posse da suplente Eliane Xunakalo, que assume como a primeira mulher indígena a exercer o cargo de deputada estadual no país.
“Estou muito feliz e honrado de, na minha licença, abrir o mandato para que a Eliane Xunakalo possa exercer esse papel e trazer para cá a luta dos povos indígenas de Mato Grosso”, afirmou Lúdio, reforçando que a presença da nova parlamentar amplia a representatividade dentro do Legislativo estadual em áreas onde, segundo ele, há carência histórica de políticas públicas.
A licença, segundo o deputado, também está ligada a questões pessoais de saúde. Ele revelou que foi diagnosticado com asma há cerca de dois anos e que precisa, periodicamente, se afastar para tratamento. Mesmo fora do exercício formal do mandato, garantiu que continuará acompanhando os debates e pressionando por pautas que considera prioritárias. Lúdio também destacou que este é o terceiro rodízio promovido por ele, após as passagens de Graciele e Edna, mantendo uma sequência marcada pela presença feminina na vaga.
A entrevista rapidamente ganhou contornos mais duros quando o parlamentar abordou a crise no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Segundo ele, a demissão de 56 profissionais no dia 31 de março agravou um cenário que já era crítico. “Das 12 equipes que atendem Cuiabá e Várzea Grande, sete não estão funcionando por falta de profissionais”, denunciou. Lúdio afirmou que já acionou o Ministério Público, formalizou denúncia e cobrou explicações da Secretaria de Estado de Saúde, além de ter solicitado a convocação do secretário da pasta, prevista para a próxima semana.
O deputado classificou a situação como grave e cobrou respostas imediatas. “Não faz sentido não ter o SAMU funcionando. Estamos falando de urgência e emergência, de vidas”, disse, acrescentando que, mesmo licenciado, pretende acompanhar pessoalmente a audiência com o secretário para manter a pressão política sobre o tema.
No campo nacional, Lúdio também comentou o projeto encaminhado pelo presidente Lula para o fim da escala de trabalho seis por um. Em tom enfático, rebateu críticas da direita e fez uma analogia histórica para sustentar sua posição. “Diziam que o Brasil ia quebrar com o fim da escravidão, com o salário mínimo, com o 13º. É o mesmo discurso de sempre, de quem só defende patrão”, disparou.
Para o parlamentar, a mudança para uma jornada de cinco dias de trabalho com dois de descanso representa um avanço social e econômico. Ele argumenta que a medida protege as famílias e melhora a produtividade. “É uma escala sacrificante, doentia. O trabalhador precisa de tempo para a família e para a saúde mental”, afirmou.
O ponto mais tenso da entrevista veio ao comentar declarações do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), sobre o Hospital Universitário Júlio Müller. Lúdio não economizou críticas e acusou o prefeito de oportunismo político. “O Abílio é impressionante. Descobriu agora que existe o hospital e vem aqui criar confusão. Nunca tratou desse tema antes”, afirmou.
O deputado ainda destacou que a obra do hospital, vinculada à Universidade Federal de Mato Grosso, foi retomada com recursos do governo federal após paralisação no período anterior. Ele também lembrou o envio de emendas parlamentares para a saúde da capital. “Nos últimos dois anos, mandei R$ 11,5 milhões para Cuiabá. Nunca houve sequer um agradecimento”, disse, acrescentando que pretende destinar mais R$ 1,5 milhão neste ano.
Em tom ainda mais incisivo, Lúdio criticou a condução da gestão municipal. “Cuiabá não tem prefeito ainda. Essa é a grande verdade”, afirmou, ampliando o tom político de uma entrevista que começou com um gesto institucional e terminou em confronto aberto.
A saída temporária de Lúdio, portanto, abre espaço para um momento simbólico dentro da Assembleia, com a chegada inédita de uma mulher indígena ao parlamento estadual, mas também evidencia um cenário político marcado por disputas intensas, crise na saúde pública e embates que devem ganhar ainda mais força nas próximas semanas.






