Farra das diárias: Joélio Moraes e dois assessores gastaram quase R$ 140 mil em viagens na Câmara de Primavera do Leste
Somente até agosto de 2026, ano eleitoral, gabinete consumiu R$ 102.500 em diárias; valores não incluem despesas com motoristas, veículos e combustível, que não puderam ser identificadas no sistema da Câmara Foto: Montagem NMT
O vereador Joélio Moraes e dois assessores de seu gabinete acumularam R$ 139.675 em diárias de viagens pagas pela Câmara Municipal de Primavera do Leste, considerando todo o ano de 2025 e apenas os oito primeiros meses de 2026. Os números mostram uma escalada das despesas justamente em ano eleitoral, quando o discurso de austeridade e responsabilidade com o dinheiro público deveria ser acompanhado de medidas concretas de economia. Somente entre janeiro e agosto deste ano, os três consumiram R$ 102.500 em diárias, quase três vezes o valor registrado durante os 12 meses de 2025.
O valor identificado, entretanto, não representa necessariamente o custo total dessas viagens para os cofres públicos. O levantamento não inclui eventuais despesas com motoristas, combustível e utilização de veículos oficiais. O sistema de transparência da Câmara Municipal não permite identificar, de maneira clara e individualizada, quanto foi gasto com esses serviços em cada deslocamento. A ausência dessas informações dificulta o trabalho de fiscalização da imprensa e impede que a população conheça o custo completo das viagens realizadas pelos parlamentares e seus assessores.
Em 2025, Joélio Moraes recebeu R$ 22.700 em diárias. Nos primeiros oito meses de 2026, o valor saltou para R$ 55.500, crescimento de aproximadamente 144%. O parlamentar conseguiu gastar, em apenas oito meses, quase duas vezes e meia o que havia recebido durante todo o ano anterior. A pergunta é inevitável: por que um vereador precisa viajar tanto, especialmente em ano eleitoral? O que mudou nas atribuições do mandato para justificar tamanho crescimento das despesas?
A situação se repete com Valmisley Alves dos Santos, principal assessor do parlamentar e apontado como seu amigo de infância. Em 2025, ele recebeu R$ 14.025 em diárias. Entre janeiro e agosto de 2026, os pagamentos chegaram a R$ 33.750, aumento de aproximadamente 141%. O outro assessor, Gustavo Sanclair, recebeu R$ 450 em 2025 e R$ 13.250 nos primeiros oito meses deste ano, crescimento de aproximadamente 2.844%.
Somados, os três receberam R$ 37.175 em diárias durante todo o ano de 2025. Em apenas oito meses de 2026, o montante alcançou R$ 102.500, aumento de aproximadamente 176%. E essa conta ainda não está fechada. Os relatórios analisados vão somente até agosto. Os gastos de setembro, outubro e dos meses seguintes ainda precisam ser levantados, o que poderá elevar ainda mais o total identificado.
A justificativa frequentemente utilizada por vereadores para defender viagens é a busca por emendas parlamentares e recursos junto a deputados e senadores. Entretanto, buscar emendas não constitui atribuição constitucional específica do vereador. Sua responsabilidade principal é legislar, fiscalizar o Executivo, acompanhar a aplicação dos recursos municipais e representar os interesses da população.
Articular investimentos pode fazer parte da atuação política, mas não transforma viagens frequentes em uma necessidade do mandato. Além disso, vivemos em uma época em que reuniões podem ser realizadas por videoconferência, documentos podem ser encaminhados eletronicamente e projetos podem ser discutidos sem que seja necessário deslocar vereadores e assessores para outras cidades ou estados.
Um parlamentar pode conversar com deputados federais, senadores, ministros e representantes de órgãos públicos sem sair de Primavera do Leste. Basta organização, disposição para trabalhar e respeito ao dinheiro do contribuinte.
É preciso acabar com a ideia de que exercer um mandato exige uma agenda permanente de viagens. O vereador foi eleito para trabalhar pela cidade, fiscalizar contratos, acompanhar obras, analisar projetos e cobrar resultados da administração municipal. Não foi eleito para transformar aeroportos, hotéis e restaurantes em extensão de seu gabinete, com todas as despesas custeadas pela população.
E quando um vereador viaja acompanhado de assessores, a necessidade de explicações é ainda maior. Por que Joélio Moraes precisa de dois integrantes de seu gabinete realizando deslocamentos pagos pela Câmara? Qual é a função de cada assessor nessas viagens? Que atividades desempenham fora do município? É necessário que acompanhem o parlamentar nas agendas? Existem relatórios individualizados que demonstrem a participação e os resultados obtidos por cada servidor?
A falta de transparência sobre os custos de transporte agrava ainda mais a situação. Se um vereador utiliza veículo oficial, acompanhado de motorista e assessores, o contribuinte não paga apenas as diárias. Também pode arcar com combustível, manutenção do veículo, despesas operacionais e custos relacionados ao servidor responsável pela condução. Sem informações individualizadas, não é possível determinar quanto cada viagem efetivamente custou.
O sistema disponibilizado pela Câmara deveria permitir que qualquer cidadão identificasse, com facilidade, quem viajou, para onde, por qual motivo, durante quantos dias, com qual veículo e a que custo. Entretanto, a dificuldade de localizar os gastos com motoristas, carros e combustível impede uma avaliação completa das despesas. Mais uma vez, a falta de informações acessíveis compromete o trabalho da imprensa e o direito da população de fiscalizar a aplicação do dinheiro público.
A população não pode aceitar que fotografias em gabinetes de deputados, registros em frente ao Congresso Nacional ou publicações nas redes sociais sejam apresentados como prestação de contas suficiente. Uma fotografia não comprova a necessidade da viagem. Uma reunião não significa conquista de recursos. E uma promessa de emenda parlamentar não representa dinheiro efetivamente depositado nos cofres do município.
A proximidade pessoal entre Joélio Moraes e seu principal assessor, Valmisley Alves dos Santos, também reforça a necessidade de transparência. Apontado como amigo de infância do vereador, o servidor recebeu R$ 33.750 em diárias nos primeiros oito meses de 2026. A amizade não representa irregularidade, mas o volume de recursos públicos destinados às viagens exige explicações detalhadas sobre a finalidade dos deslocamentos e os serviços realizados.
A discussão ultrapassa o gabinete de Joélio Moraes. A Câmara Municipal de Primavera do Leste vem sendo questionada pelos elevados gastos com diárias, verbas indenizatórias e pela reforma de sua sede, cujo custo já se aproxima de R$ 10 milhões. Enquanto a população trabalha para pagar impostos e enfrenta dificuldades para manter as contas em dia, o Legislativo continua consumindo valores expressivos com despesas que precisam ter sua necessidade demonstrada.
Existe ainda uma contradição política difícil de ignorar. Durante as campanhas eleitorais, vereadores fizeram discursos inflamados contra os gastos do governo federal, criticaram o desperdício de dinheiro público e defenderam responsabilidade fiscal. Mas quando a discussão chega às despesas da própria Câmara, o rigor parece desaparecer. A austeridade cobrada de Brasília precisa começar dentro do Legislativo municipal.
Diárias são instrumentos legais para custear deslocamentos necessários ao serviço público. Não são complemento salarial, prêmio por ocupar cargo político ou benefício que deva ser utilizado simplesmente porque existe dinheiro disponível no orçamento. A autorização de uma viagem precisa observar o interesse público, a economicidade e a efetiva necessidade do deslocamento.
O vereador Joélio Moraes precisa explicar por que seus gastos pessoais com diárias passaram de R$ 22.700 em 2025 para R$ 55.500 em apenas oito meses de 2026. Precisa esclarecer por que seus dois assessores também registraram aumentos tão expressivos e apresentar os resultados concretos das viagens realizadas.
A Câmara, por sua vez, precisa informar quantos deslocamentos foram autorizados, quais destinos foram visitados, quais compromissos exigiram presença física, quem participou das agendas e por que essas atividades não poderiam ter sido realizadas remotamente. Também precisa disponibilizar os registros de utilização dos veículos oficiais, os custos com combustível e as informações sobre motoristas eventualmente designados para acompanhar os deslocamentos.
Os quase R$ 140 mil identificados até agora representam apenas as diárias de três integrantes de um único gabinete. O custo total das viagens permanece desconhecido. Sem os valores de transporte e sem os registros posteriores a agosto, a conta apresentada ao contribuinte ainda está incompleta.
Em Primavera do Leste, a discussão sobre a próxima Mesa Diretora deveria começar por um compromisso de redução das despesas. Antes de disputar cargos, espaços políticos e o controle do orçamento da Câmara, os vereadores deveriam explicar por que continuam gastando tanto com viagens e quais medidas pretendem adotar para economizar.
Os números do gabinete de Joélio Moraes mostram que a cobrança não pode esperar. Em apenas oito meses de um ano eleitoral, vereador e assessores gastaram R$ 102.500 em diárias. E ninguém consegue saber, pelas informações disponíveis no sistema, quanto custaram os eventuais deslocamentos de veículos e motoristas.
Quem deseja conhecer outras cidades, frequentar hotéis e viajar pelo país tem todo o direito de fazê-lo com o próprio dinheiro. Quando a conta é paga pela população, cada despesa precisa ser justificada, comprovada e divulgada com transparência. A Câmara Municipal de Primavera do Leste deve explicações sobre os gastos e sobre as dificuldades que seu próprio sistema impõe a quem tenta fiscalizá-los.






