Farra das diárias: Câmara de Primavera do Leste recebe reforço de mais R$ 220 mil para viagens e capacitações
Decreto assinado pelo prefeito Sérgio Machnic remaneja R$ 370 mil no orçamento do Legislativo, incluindo recursos retirados de publicidade, auxílio-alimentação e manutenção parlamentar; gastos com diárias já haviam ultrapassado R$ 1,6 milhão em setembro Foto: Reprodução
A chamada farra das diárias na Câmara Municipal de Primavera do Leste acaba de ganhar mais um capítulo que merece explicações à população. Depois de registrar gastos milionários com viagens e capacitações de vereadores e servidores ao longo de 2026, o Legislativo municipal teve seu orçamento reforçado em mais R$ 220 mil exclusivamente para pagamento de diárias. A movimentação consta no Decreto nº 2.712, de 18 de setembro de 2026, assinado pelo prefeito Sérgio Machnic, que autorizou o remanejamento de R$ 370 mil entre diferentes despesas da própria Câmara.
Do total suplementado, R$ 150 mil foram destinados ao pagamento de diárias vinculadas ao cumprimento das obrigações gerais da administração pública, enquanto outros R$ 70 mil foram direcionados às diárias para capacitação dos servidores do Legislativo. Somados, os dois valores representam aproximadamente 59,5% de todo o dinheiro remanejado pelo decreto, demonstrando o peso que as viagens continuam tendo no planejamento financeiro da instituição.
O novo documento chama ainda mais atenção quando confrontado com os números que já vinham sendo apresentados nas reportagens sobre os gastos da Câmara. Até o dia 16 de setembro, o Legislativo de Primavera do Leste já havia desembolsado R$ 1.694.950 em diárias, enquanto a previsão orçamentária, inicialmente de R$ 703 mil, já havia sido ampliada para R$ 2,153 milhões por meio de suplementações anteriores. Os levantamentos também apontavam crescimento aproximado de 160% nas despesas em comparação com o mesmo período de 2025, enquanto a quantidade de solicitações de diárias havia passado de 437 para 555, aumento próximo de 27%.
É justamente diante desse histórico que a nova suplementação levanta questionamentos. Afinal, como uma Câmara que começou o ano com previsão de R$ 703 mil para diárias chegou a setembro precisando reforçar novamente as dotações destinadas a essa finalidade? O que justifica um crescimento tão expressivo nos recursos reservados para viagens e capacitações? E, principalmente, quais resultados concretos essas despesas estão trazendo para a população de Primavera do Leste?
Outro aspecto que merece atenção é a origem dos recursos utilizados no remanejamento. Para abrir o crédito suplementar de R$ 370 mil, foram reduzidas dotações anteriormente destinadas a diferentes atividades da Câmara. Entre elas estão R$ 150 mil previstos para ações relacionadas à criação, planejamento e veiculação de campanhas publicitárias, R$ 90 mil de despesas ligadas à manutenção das atividades legislativas e parlamentares, R$ 60 mil de indenizações e restituições, R$ 30 mil da dotação de auxílio-alimentação dos servidores, R$ 30 mil de serviços relacionados à capacitação de vereadores e agentes políticos e outros R$ 10 mil de serviços prestados por pessoas físicas.
Além dos R$ 220 mil destinados às diárias, o decreto também reforçou em R$ 100 mil a dotação para contratação de serviços de pessoas jurídicas e em R$ 50 mil a destinada à aquisição de materiais de consumo. Na prática, não se trata da entrada de dinheiro novo nos cofres do Legislativo, mas de uma redistribuição de recursos que já estavam previstos no orçamento. Ainda assim, a decisão revela quais despesas receberam prioridade na reorganização financeira realizada em setembro.
É importante destacar que a suplementação orçamentária não significa que os R$ 220 mil já tenham sido efetivamente gastos. O decreto autoriza o reforço das dotações, e a utilização dos recursos depende da execução das despesas. Também será necessário verificar se esse valor já estava contemplado no total de R$ 2,153 milhões identificado nos levantamentos anteriores ou se representa uma ampliação posterior daquele montante.
A discussão, entretanto, vai muito além da legalidade dos procedimentos administrativos. Ninguém questiona que vereadores e servidores possam viajar a serviço do município ou participar de cursos que contribuam para o aperfeiçoamento da administração pública. O problema surge quando os gastos alcançam cifras milionárias e a sociedade não consegue identificar, com a mesma facilidade, os benefícios proporcionados por tantas viagens.
Em uma cidade onde a população cobra diariamente melhorias nos serviços públicos, infraestrutura e eficiência na aplicação do dinheiro arrecadado dos contribuintes, é razoável exigir que o Legislativo demonstre a necessidade de cada deslocamento, a relevância das capacitações realizadas e os resultados efetivamente alcançados. Participar de cursos, seminários e encontros institucionais pode ser importante, mas a simples apresentação de certificados não substitui a obrigação de prestar contas sobre o retorno dessas atividades para o município.
O decreto foi formalizado pelo Executivo municipal com fundamento na Lei nº 2.446, de 11 de dezembro de 2025, que autorizou a abertura de créditos suplementares. A assinatura do prefeito, portanto, não significa necessariamente que a decisão sobre a destinação dos recursos tenha partido dele. A movimentação envolve dotações da Câmara Municipal, que possui autonomia administrativa e orçamentária.
O que permanece sem resposta no próprio documento é a justificativa específica para a necessidade de ampliar em mais R$ 220 mil os recursos destinados às diárias justamente no mês de setembro, quando os gastos já haviam alcançado patamares expressivos. Também não há detalhamento sobre quais viagens ou atividades de capacitação motivaram o reforço financeiro.
A Câmara Municipal de Primavera do Leste, presidida pelo vereador Marco Aurélio Salles, precisa esclarecer à população por que as despesas com diárias continuam exigindo suplementações tão significativas, quais critérios estão sendo adotados para autorizar os deslocamentos e que medidas de controle existem para assegurar o uso responsável do dinheiro público.
Enquanto essas explicações não chegam, os números continuam falando por si. Uma previsão inicial de R$ 703 mil, despesas que já ultrapassavam R$ 1,6 milhão em setembro e agora um decreto destinando mais R$ 220 mil às dotações de diárias. A pergunta que fica é simples: se a Câmara está investindo tanto em viagens e capacitações, por que a população ainda precisa perguntar quais benefícios concretos estão voltando para Primavera do Leste?
Porque viajar com dinheiro público pode até fazer parte da atividade parlamentar. O que não pode é transformar as diárias em prioridade permanente sem demonstrar, de maneira clara e transparente, que cada real gasto valeu a pena para quem paga a conta.






