• 6 de setembro de 2026
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ELEIÇÕES 2026

Só falar mal de Lula já não basta: novos bolsonaristas ignoram mudança do eleitor em MT

Enquanto novatos insistem na velha cantilena contra PT e esquerda, nomes que lideram pesquisas dentro do campo conservador chegam à disputa com mandato, emendas, presença nos municípios e resultados para apresentar
Foto: Reprodução

A eleição de 2026 começa a impor uma realidade incômoda a uma parcela da direita de Mato Grosso: ser bolsonarista continua tendo peso eleitoral, mas apenas repetir ataques ao presidente Lula, ao PT e à esquerda já não parece suficiente para transformar qualquer candidato em fenômeno nas urnas. O discurso que durante anos mobilizou multidões e ajudou a impulsionar nomes praticamente desconhecidos continua encontrando eco em uma parcela importante do eleitorado mato-grossense, mas a disputa atual começa a mostrar que identidade ideológica e voto automático deixaram de ser exatamente a mesma coisa.

Ainda assim, parte dos novos candidatos do campo bolsonarista parece não ter percebido a mudança. A estratégia continua praticamente presa ao roteiro das eleições anteriores: criticar Lula, atacar o PT, reafirmar fidelidade a Jair Bolsonaro, endurecer o discurso contra a esquerda e acreditar que isso, sozinho, será suficiente para conquistar uma cadeira na Câmara Federal. O problema é que a própria fotografia eleitoral de Mato Grosso começa a apresentar outra realidade.

Entre os nomes bolsonaristas mais competitivos para deputado federal aparecem justamente os coronéis Assis (PL) e Fernanda (PL), ambos deputados federais e candidatos à reeleição. Os dois carregam a identidade conservadora, têm ligação com o bolsonarismo e mantêm discurso duro contra a esquerda, mas possuem algo que muitos dos estreantes não têm: quatro anos de mandato para apresentar ao eleitor.

Nesse período, tiveram acesso ao Orçamento da União, destinaram emendas, atenderam municípios, construíram relações com prefeitos, vereadores e lideranças, participaram de votações importantes e acumularam presença política pelo Estado. É possível concordar ou discordar da atuação de cada um, mas existe entrega para ser colocada na mesa. E essa diferença pode ser decisiva em uma eleição proporcional.

Pesquisa Percent Brasil realizada em agosto colocou Coronel Assis na liderança da espontânea para deputado federal, com 2,9%, enquanto Coronel Fernanda apareceu com 2%. Em levantamento anterior do mesmo instituto, realizado em junho, Fernanda havia registrado 4,4% e Assis 3,8%, ocupando as duas primeiras posições.

Os percentuais ainda são pequenos e o número de indecisos permanece elevado, o que impede qualquer previsão definitiva sobre quem ficará com as oito cadeiras de Mato Grosso na Câmara dos Deputados, mas o desenho oferece um recado político importante: dentro do próprio universo bolsonarista, quem aparece com maior musculatura eleitoral são justamente candidatos que conseguem combinar discurso ideológico com mandato e entrega.

É exatamente essa leitura que parte dos novos candidatos parece ignorar. Muitos continuam disputando 2026 como se estivessem em 2018 ou 2022, quando a força política de Jair Bolsonaro era capaz de transformar uma fotografia, uma declaração de apoio ou a simples associação de um candidato ao ex-presidente em ativo eleitoral gigantesco. Bolsonaro produziu uma geração de parlamentares impulsionados por uma onda nacional que ultrapassava partidos, estruturas regionais e, em alguns casos, até a necessidade de uma trajetória política anterior.

O cenário agora é diferente. O bolsonarismo não desapareceu, especialmente em Mato Grosso, um dos estados mais conservadores do país, mas a capacidade de transferência automática de votos não pode mais ser tratada como garantia. Flávio Bolsonaro continua competitivo na disputa presidencial e aparece próximo de Lula nas pesquisas, mas ainda não demonstrou possuir a mesma capacidade do pai de transformar desconhecidos em fenômenos eleitorais apenas pela associação de imagem.

Existe uma diferença entre o eleitor decidir votar em Flávio para presidente e aceitar votar para deputado em qualquer pessoa que se apresente como representante do bolsonarismo. Essa distinção pode custar caro para quem não percebê-la.

Outro sinal aparece no próprio comportamento nacional do eleitorado. Levantamento Datafolha divulgado neste início de setembro apontou que 32% dos brasileiros se consideram menos engajados na campanha eleitoral deste ano do que estavam em 2022, enquanto apenas 18% dizem estar mais engajados. Isso não significa necessariamente desinteresse pela eleição, mas sugere que aquela temperatura política excepcional vista quatro anos atrás não está sendo reproduzida na mesma intensidade.

A eleição continua polarizada, Lula e Flávio Bolsonaro continuam concentrando a maior parcela das intenções de voto, mas existe um eleitor menos disposto a transformar toda discussão política em uma batalha permanente entre petismo e bolsonarismo. O crescimento de Augusto Cury na corrida presidencial também ajuda a compreender esse movimento. O escritor e psiquiatra avançou nas últimas pesquisas e encontrou espaço principalmente entre segmentos que procuram uma alternativa à polarização tradicional.

Ainda é cedo para saber até onde essa candidatura poderá chegar, mas seu crescimento serve como outro alerta para quem acredita que a eleição inteira continuará resumida à velha guerra entre esquerda e direita. Em Mato Grosso, esse erro pode ser ainda mais perigoso entre candidatos proporcionais.

Uma eleição para deputado federal exige voto pessoal. O candidato precisa disputar espaço não apenas contra a esquerda, mas principalmente contra outros candidatos da própria direita. Um bolsonarista não concorre somente contra petistas. Ele concorre contra outros bolsonaristas, conservadores, empresários, policiais, vereadores, ex-prefeitos, deputados de mandato e lideranças regionais que disputam exatamente o mesmo eleitor.

Quando praticamente todos defendem Bolsonaro e praticamente todos atacam Lula, o discurso deixa de ser diferencial. É nesse momento que o eleitor começa a perguntar o que existe além da ideologia. Qual município o candidato ajudou? Que recurso conseguiu? Que serviço prestou? Qual é sua história? Que liderança construiu? Qual problema conhece? Que resultado consegue apresentar? O que pretende fazer em Brasília além de votar contra o PT?

Coronel Assis e Coronel Fernanda entram nessa disputa com uma vantagem evidente: podem responder a essas perguntas mostrando quatro anos de mandato. Os novatos precisam encontrar outras respostas. Quem não ocupou cargo público pode apresentar trajetória profissional, serviços prestados, liderança comunitária, conhecimento regional, propostas concretas ou alguma história que justifique sua candidatura.

O que parece cada vez mais arriscado é acreditar que uma candidatura possa ser construída exclusivamente sobre aquilo que ela combate. Dizer que Lula é ruim pode garantir curtidas. Atacar o PT pode produzir comentários. Repetir palavras de ordem pode gerar aplausos dentro de uma bolha já convencida. Mas eleição proporcional exige ampliar voto, e convencer quem já está convencido não necessariamente acrescenta um único eleitor novo.

Esse talvez seja o ponto que a ala mais radical da direita mato-grossense ainda resista em admitir. O bolsonarismo continua forte. O antipetismo continua forte. Jair Bolsonaro continua sendo uma das maiores referências políticas de Mato Grosso. Flávio Bolsonaro continua competitivo para presidente. Mas uma coisa começa a deixar de ser verdade: a ideia de que basta vestir a camisa bolsonarista para ser eleito.

Em 2026, discurso pode abrir a porta, mas resultado, presença e entrega tendem a decidir quem consegue atravessá-la. Depois de anos ouvindo candidatos explicarem contra quem são, uma parcela do eleitorado parece começar a cobrar uma resposta mais simples e muito mais difícil: além de falar mal de Lula e do PT, o que você fez — e o que tem para entregar?

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