Certificação RTRS se transforma em um ativo comercial e qualifica produtores para mercados mais exigentes
Foto:
No cenário atual do agronegócio, onde a produtividade precisa caminhar junto com a preservação, a busca por validações internacionais tornou-se um marco para as empresas do setor sementeiro. Um dos reconhecimentos mais importantes da atualidade para o segmento é o selo concedido pela Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS). Esse tipo de reconhecimento, em paralelo com a entrada efetiva no mercado de crédito de carbono, leva as sementeiras para uma das fronteiras mais promissoras do agronegócio global.
Além das empresas de produção de sementes darem mais foco a esse movimento de sustentabilidade, associações e grupos de produtores rurais também estão migrando para essa tendência que veio para ficar. É o caso do Clube Amigos da Terra (CAT), criado em 2003 e sediado na região de Sorriso, que desde 2013 conta com a parceria da certificação RTRS, como explica a presidente do CAT, Márcia Becker Paiva. “Inicialmente foram nove propriedades na época, e gradualmente o número foi aumentando com a divulgação que fizemos, tanto em Sorriso como na nossa região. Atualmente, temos 58 propriedades certificadas, que totalizam mais de 680.000 hectares de soja com o selo RTRS. As fazendas começaram a ficar mais organizadas, começou-se a ver o trabalhador não como um peão, mas sim como um colaborador que necessitava de atenção também, assim como os agricultores. E isso foi cumprindo essas metas que a RTRS nos exigia até chegarmos a esse grande número. Com o aumento contínuo, nós conseguimos preservar, sim, e com qualidade do grão em grande escala; ao mesmo tempo, a gente consegue preservar o meio ambiente para conseguir produzir por muitos anos ainda”, destacou.
Em Mato Grosso, uma empresa de produção de sementes recentemente recebeu o selo da RTRS, após uma rigorosa auditoria que valida toda a cadeia produtiva da semente, assegurando que o insumo foi gerado sob os mais estritos critérios de desmatamento zero, respeito às leis trabalhistas e conservação ambiental. O coordenador de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Petrovina Sementes, Tiago Rodrigues de Souza, que também é responsável pelo setor de certificação e sustentabilidade, conta que, em 2023, a empresa iniciou o processo de entrada na RTRS, o que, segundo ele, trará avanços em diversas áreas do processo produtivo de sementes. “Essa certificação agrega muito para o produtor não só na parte financeira, com o retorno financeiro gerado por meio de um crédito, mas também há um ganho organizacional, pois ajuda a fazenda a se organizar perante os órgãos regulatórios”, disse.
Ainda sobre a certificação conquistada, Tiago explica que a RTRS referência os créditos de carbono. Ele detalha que, em 2023 e 2024, a Petrovina Sementes teve o primeiro crédito dentro de bancos específicos para a área de sustentabilidade, ou seja, um crédito dedicado à RTRS, um crédito de sustentabilidade na captação de recursos. Outras vantagens também são listadas pelo coordenador da empresa. “Em caso de fiscalização dentro da fazenda, devido ao nível regulatório que é apresentado, são evitados vários passivos, tanto ambientais quanto trabalhistas; a certificação ajuda a regularizar essas questões. E, dentro do mercado geral, esse selo da RTRS oferece uma maior confiabilidade para o produto. Como exemplo de caso, a nossa soja hoje é comercializada para uma Trader; a primeira coisa que a Trader pergunta em algumas transações é se a nossa soja é RTRS. Em caso positivo, a operação já ganha algumas vantagens em relação àquelas que não têm a certificação”, explicou.
O posicionamento da sementeira mato-grossense nesse cenário é reforçado com o lançamento da Primepro Eco, a primeira semente de soja carbono zero do planeta. O coordenador da área de Tecnologia Agrícola da Petrovina Sementes e responsável pelo projeto de inventário de carbono, Pedro Mokfa, fala sobre o processo dentro da cadeia de produção de sementes para que o produto seja considerado neutro em relação à emissão de carbono: “Essa nova linha de sementes envolve todas as cultivares do portfólio que a empresa produz, o que é um avanço na tecnologia dessa linha. Adicionamos a sustentabilidade ao processo e, assim, realizamos o inventário de carbono, desde o plantio até o transporte, fazendo a descarbonização dessa semente com a mensuração de quanto se emite de CO2. Na sequência, promovemos o ressarcimento desse CO2 com a compra do crédito de carbono para deixá-la neutra”, destacou.
ZERANDO O CARBONO – Dentro da operação agrícola da Petrovina Sementes são registrados vários processos que emitem CO2, como, por exemplo, no plantio, na aplicação de nitrogenados, no uso de energia elétrica, na usina da UBS, na combustão de tratores, em caminhões e no transporte. Com esse mapeamento, é realizado pela coordenação de Tecnologia Agrícola o inventário de carbono, mensurando tudo o que o grupo emite de carbono. No ano passado, para se ter uma ideia, a empresa emitiu 30.000 toneladas de CO2 em toda a operação. Nesse caso, a equipe rastreou apenas o ciclo da soja desde a chegada do produto, plantio, pulverização, colheita, transporte e armazenamento. Após isso, foi mensurado quanto de carbono foi emitido, chegando à métrica de que cada tonelada de sementes resultou em 300 quilos de CO2.
Com essa razão em mãos, a sementeira foi ao mercado e procurou um projeto com créditos de carbono, optando por um da Amazônia Legal voltado à conservação de florestas, promovendo a aquisição desses créditos. Com essa fase concluída, o próximo passo foi a compensação desse carbono, ou seja, toda a linha Primepro Eco recebeu 100% de créditos, zerando o carbono e concluindo o processo de descarbonização.






