• 27 de junho de 2026
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ARTIGO

O poder, o fanatismo e a sucessão no bolsonarismo

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O vídeo de Michelle Bolsonaro ultrapassa a esfera familiar e reacende uma velha questão da política. Quando a disputa pelo poder se intensifica, lealdades são testadas, alianças se desfazem e as lições de Maquiavel, Dostoiévski, Eric Hoffer e José Saramago tornam-se mais atuais do que nunca.

Toda disputa pelo poder começa muito antes de se tornar pública. O vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não foi interpretado apenas como um desabafo familiar e está longe de refletir, aos olhos de muitos observadores, o lema Deus, Pátria e Família, historicamente associado ao bolsonarismo. Para muitos analistas, a gravação expõe uma disputa carregada de simbolismos e revela que a sucessão da liderança do bolsonarismo entrou em uma nova fase. Sem entrar no mérito das acusações feitas contra seu enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, o episódio evidencia que o tabuleiro político está sendo reorganizado e que a disputa pelo legado político da família deixou de ser uma hipótese para se tornar realidade.

A pergunta que naturalmente surge é simples. Quem representará o bolsonarismo nos próximos anos? O herdeiro ou a herdeira?

É justamente nesse cenário que se compreende o verdadeiro significado do maquiavelismo. Muito além da interpretação simplista que associa o termo à maldade, Maquiavel ensinou que a política possui regras próprias e que o exercício do poder exige decisões guiadas pela conveniência, pela estratégia e pelos interesses concretos. Sua principal advertência permanece atual. Quando o assunto é poder, a confiança absoluta na natureza humana costuma ser um erro.

Leonel Brizola sintetizou essa lógica em uma frase memorável. A política ama a traição, mas não perdoa os traidores. A máxima traduz um ambiente em que alianças são circunstanciais, lealdades mudam conforme os interesses e cada movimento é cuidadosamente calculado.

Essa lógica também aparece na Lei 15 de As 48 Leis do Poder, de Robert Greene. Esmague totalmente o inimigo. No campo político, isso não significa destruição física, mas neutralizar completamente a capacidade de reação do adversário. Mudanças em diretórios, isolamento de lideranças e disputas internas dificilmente acontecem por acaso. São movimentos estratégicos destinados a consolidar espaços de influência.

Mas compreender a política exige compreender também o comportamento humano.

Foi isso que Dostoiévski demonstrou em Os Demônios. O fanático não nasce odiando pessoas. Ele nasce amando uma ideia. O problema começa quando essa ideia passa a valer mais do que os próprios seres humanos. Nesse instante, quem concorda torna-se aliado. Quem discorda transforma-se em obstáculo. A partir daí, a crueldade passa a parecer necessária, a violência encontra justificativas e qualquer meio pode ser aceito em nome de um fim considerado superior. O maior alerta de Dostoiévski é que o fanático perde, antes de tudo, a capacidade de enxergar a humanidade do outro.

Décadas depois, Eric Hoffer aprofundou essa reflexão em O Verdadeiro Crente. Para ele, movimentos de massa raramente atraem pessoas essencialmente más. Atraem, sobretudo, indivíduos que buscam pertencimento, identidade e propósito. A causa passa a preencher vazios pessoais, substituindo dúvidas por certezas absolutas. Quando isso acontece, a identidade individual é absorvida pela identidade coletiva e o pensamento crítico cede lugar à convicção inabalável.

O que une Maquiavel, Dostoiévski e Eric Hoffer é uma verdade incômoda. O poder e o fanatismo não são fenômenos distantes nem excepcionais. Eles emergem de dinâmicas profundamente humanas. Da necessidade de pertencimento. Da dificuldade de suportar o vazio. Da tentação de transformar pessoas em instrumentos para alcançar um objetivo considerado maior.

No Brasil de 2026, enquanto o tabuleiro político se reorganiza e as peças mudam de posição, essas reflexões tornam-se mais atuais do que nunca. O vídeo de Michelle Bolsonaro ultrapassa os limites de um conflito familiar. Independentemente da interpretação sobre seus protagonistas, ele simboliza um momento em que lealdades são testadas, alianças são redefinidas e o poder, como ensinou Maquiavel há mais de cinco séculos, continua obedecendo às suas próprias regras.

A questão que permanece para quem observa, e também para quem participa da política, não é apenas quem vencerá essa disputa. A pergunta realmente importante é outra. Até onde estamos dispostos a ir em nome de uma causa? E em que momento essa causa deixa de ser um instrumento para promover o bem comum e passa a justificar qualquer meio?

Talvez José Saramago ofereça a imagem mais poderosa para responder a essa pergunta. Em Ensaio sobre a Cegueira, a perda da visão é apenas uma metáfora. A verdadeira cegueira não está nos olhos, mas na incapacidade de reconhecer o outro, de preservar a ética quando as instituições falham e de resistir à barbárie quando ela passa a parecer normal. A pior cegueira não é deixar de ver, mas deixar de perceber a humanidade alheia. Talvez esse seja o maior risco de qualquer disputa pelo poder. Quando a política deixa de enxergar pessoas e passa a enxergar apenas aliados e inimigos, todos perdem a capacidade de ver com clareza. E é justamente nesse momento que a democracia começa a escurecer.

 

Ilson Galdino – Advogado e servidor público

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