O perigo da farmacinha caseira: mistura de medicamentos comuns podem causar falência renal
No Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, farmacêutico alerta que o hábito de se automedicar mata 20 mil pessoas por ano no Brasil Foto: Reprodução
Goiás ocupa hoje a posição de um dos maiores polos farmacêuticos do Brasil, mas a abundância e o acesso facilitado aos remédios trazem um desafio cultural: a automedicação. 05 de maio é o Dia Nacional sobre o Uso Racional de Medicamentos, data que chama a atenção para um hábito perigoso presente na maioria dos lares brasileiros: a “farmacinha caseira”.
O estado abriga o segundo maior polo farmacêutico do Brasil, atrás apenas de São Paulo, e detém a maior concentração de empresas de medicamentos genéricos da América Latina, com gigantes instaladas em Anápolis e Aparecida de Goiânia que respondem por cerca de 25% da produção nacional.
No entanto, a facilidade de acesso a esses produtos contrasta com uma estatística: dados da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) indicam que a automedicação causa cerca de 20 mil óbitos anuais no Brasil. Nesse cenário, o consumo sem orientação transforma o que deveria ser um ativo econômico e de saúde em um risco invisível dentro de casa.
Para Álvaro Paulo Souza, mestre em ciências biológicas, docente do curso de Farmácia da Estácio e conselheiro regional do CRF-GO, o maior risco não é apenas tomar um medicamento sem prescrição, mas a combinação indiscriminada de substâncias aparentemente inofensivas. “Muitas pessoas acreditam que, por serem vendidos sem receita, medicamentos como analgésicos, antialérgico e anti-inflamatórios não oferecem riscos. No entanto, a mistura desses compostos pode causar danos irreversíveis, como a falência renal progressiva”, alerta.
O perigo oculto na mistura de substâncias
O uso frequente de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), categoria que inclui fármacos comuns para dores musculares e inflamações de garganta, é uma das principais causas de problemas nos rins e no sistema digestivo. Quando combinados com outros analgésicos ou usados por tempo prolongado, eles sobrecarregam a filtragem renal.
Além disso, é importante alertar para os riscos associados ao uso de antialérgicos, especialmente aqueles presentes em muitos antigripais classificados como medicamentos isentos de prescrição (MIPs). Segundo Álvaro, esses fármacos, em especial os anti-histamínicos de primeira geração, podem causar sonolência intensa, redução do estado de alerta, diminuição dos reflexos e prejuízo na coordenação motora. “Esses efeitos aumentam significativamente o risco de acidentes ao dirigir veículos ou operar máquinas que exigem atenção e destreza”, alerta .
Outro ponto de atenção que o professor alerta é que, por estarem frequentemente associados a outros componentes em formulações combinadas, como analgésicos e descongestionantes, o paciente pode consumir múltiplas substâncias sem perceber, elevando o risco de interações medicamentosas e efeitos adversos. “Além da sedação, podem ocorrer tontura, boca seca, retenção urinária e até confusão mental, principalmente em idosos. Por isso, mesmo sendo de fácil acesso, esses medicamentos devem ser utilizados com cautela e, sempre que possível, com orientação de um farmacêutico”, complementa.
Segundo o farmacêutico, o hábito de se medicar por conta própria também cria um efeito de mascaramento. “Ao tomar um remédio para aliviar uma dor persistente sem investigar a causa, o paciente pode estar silenciando sintomas de uma doença grave que precisaria de diagnóstico precoce. O medicamento retira a dor, mas o problema de base continua evoluindo silenciosamente”, explica Álvaro.
Goiás e a cultura do medicamento
A força da indústria farmacêutica no estado reflete na economia, mas Álvaro destaca que isso deve ser acompanhado por educação em saúde. O uso racional implica em utilizar o medicamento correto, na dose adequada, pelo tempo necessário e, principalmente, com orientação profissional.
“O farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível à população. Antes de recorrer a farmacinha de casa para tratar um sintoma recorrente, é fundamental que o cidadão busque orientação. O uso irracional pode transformar uma solução em um novo problema de saúde pública”, pontua.
Dicas para o descarte e armazenamento
Além do consumo, o armazenamento da “farmacinha” é outro ponto crítico mencionado pelo professor. Medicamentos guardados em locais úmidos (como banheiros) ou expostos à luz podem sofrer alterações químicas e perder a eficácia ou tornar-se tóxicos.
Álvaro lista orientações essenciais para o manejo seguro:
• Evite o estoque: Não guarde sobras de tratamentos anteriores para usar no futuro.
• Atenção ao prazo: Medicamentos vencidos devem ser descartados em pontos de coleta específicos (farmácias e postos de saúde) para evitar contaminação ambiental.
• Sintomas persistentes: Se a dor volta assim que o efeito do remédio passa, não aumente a dose; procure ajuda médica ou farmacêutica.






