Ibrahim Zaher espalha informação falsa sobre aumento do IPTU em Rondonópolis e é desmentido por vereadores na Câmara
Parlamentar anunciou aumento generalizado do imposto em vídeo publicado nas redes sociais, mas projeto encaminhado pela Prefeitura não prevê elevação de alíquotas; colegas de Legislativo contestaram a versão e acusaram tentativa de confundir a população. Foto: Reprodução
O vereador Ibrahim Zaher protagonizou, nesta quarta-feira (21), mais um episódio de desinformação no debate político de Rondonópolis. Pouco antes da sessão ordinária da Câmara Municipal, o parlamentar publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que um projeto de lei encaminhado pelo prefeito Cláudio Ferreira ao Legislativo provocaria um aumento generalizado do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). A declaração, apresentada em tom de denúncia, provocou repercussão e acabou sendo contestada pelos próprios vereadores durante a sessão, que apontaram uma diferença fundamental entre o discurso divulgado por Ibrahim e o conteúdo efetivo da proposta.
O episódio expôs uma postura preocupante de um representante eleito justamente para analisar, fiscalizar e discutir as matérias encaminhadas ao Legislativo. Ao anunciar à população um suposto aumento de impostos sem demonstrar onde o projeto estabelece essa majoração, Ibrahim transformou uma discussão técnica sobre a legislação tributária municipal em um ambiente de insegurança e desinformação. A gravidade da situação aumenta porque o assunto envolve diretamente o orçamento das famílias e dos proprietários de imóveis de Rondonópolis, que têm o direito de receber informações corretas de seus representantes.
O Projeto de Lei Complementar nº 049/2026, encaminhado pelo Executivo Municipal, trata da atualização da estrutura cadastral e fiscal do município, incluindo novos setores no Código Tributário Municipal e estabelecendo o enquadramento de áreas que passaram por expansão imobiliária. A proposta também incorpora parâmetros relativos aos valores das construções, sem estabelecer, segundo os esclarecimentos apresentados pela Secretaria Municipal de Fazenda, aumento das alíquotas do IPTU ou reajuste generalizado da Planta Genérica de Valores.
Durante a sessão, o vereador Adonias Fernandes utilizou a tribuna para esclarecer o conteúdo da matéria e rebater diretamente a interpretação divulgada por Ibrahim Zaher. Segundo Adonias, a atualização legislativa é necessária para permitir que novos condomínios e empreendimentos residenciais sejam incorporados regularmente à cobrança do imposto a partir do próximo exercício.
“Os residenciais que já têm gente morando, se o Executivo não encaminhar este projeto em 2026, a Prefeitura não pode cobrar IPTU deles no ano que vem”, explicou Adonias, ao destacar a necessidade de adequação da legislação municipal à expansão urbana registrada em Rondonópolis.
O parlamentar também foi categórico ao afastar a tese de que o projeto representa um aumento generalizado do tributo. “Para aumentar o IPTU, você tem que aumentar a alíquota. E esse projeto não fala de alíquota”, afirmou. Adonias acrescentou que a correção monetária anual do imposto é uma obrigação administrativa distinta da criação de um aumento tributário. “O prefeito é obrigado a corrigir. Se ele não corrigir, está prevaricando”, declarou.
Ao concluir sua manifestação, Adonias procurou tranquilizar os contribuintes diante da repercussão provocada pelo vídeo. “A população de Rondonópolis pode ficar tranquila. Este projeto não majora o IPTU”, assegurou.
A reação não ficou restrita a Adonias Fernandes. O vereador Renan Dourado também contestou a narrativa apresentada por Ibrahim Zaher e criticou a divulgação de informações que, segundo ele, estariam confundindo a população sobre o verdadeiro alcance da proposta. Os vereadores Kalynka Meireles e Beto do Amendoim igualmente se manifestaram em defesa do projeto, reforçando a necessidade de distinguir a atualização da legislação tributária de um eventual aumento generalizado do imposto.
A secretária municipal de Fazenda, Rane Curto, também esclareceu os objetivos do Projeto de Lei Complementar nº 049/2026 e afastou a interpretação de que a Prefeitura estaria encaminhando uma elevação indiscriminada da cobrança.
“O projeto inclui novos setores fiscais no Anexo 11 do Código Tributário Municipal, organiza o enquadramento nas zonas fiscais e incorpora a planta de valores de construção. Ele não prevê majoração de alíquotas nem reajuste geral da Planta Genérica de Valores”, explicou a secretária.
As alterações previstas na proposta estão relacionadas ao exercício de 2027, observadas as regras constitucionais aplicáveis à cobrança tributária. A inclusão de novos imóveis na base de tributação e a organização dos setores fiscais não significam, por si só, que todos os contribuintes terão seus impostos aumentados. Da mesma forma, a ausência de alteração nas alíquotas não impede que mudanças de enquadramento ou de valores de referência produzam efeitos individuais, razão pela qual a análise correta do projeto exige conhecimento de seu conteúdo integral.
O que chama a atenção no episódio, entretanto, é a facilidade com que uma informação de grande impacto social foi apresentada à população como se representasse uma decisão já estabelecida pelo poder público. Ibrahim Zaher, na condição de vereador, dispõe de instrumentos institucionais para solicitar esclarecimentos, examinar documentos, consultar técnicos e questionar os representantes do Executivo antes de levar uma denúncia dessa natureza às redes sociais. Fiscalizar a Prefeitura é uma de suas principais atribuições, mas fiscalização exige responsabilidade com os fatos.
A atuação parlamentar não pode ser confundida com a produção permanente de polêmicas para alimentar disputas políticas. Quando um vereador utiliza sua visibilidade para anunciar um aumento generalizado de imposto que não está demonstrado no projeto apresentado, o resultado é a disseminação de receio entre os contribuintes e o comprometimento da qualidade do debate público. É uma conduta que merece crítica, especialmente porque parte de alguém que recebe mandato e estrutura pública para exercer uma função institucional.
O caso também evidencia a importância de separar oposição política de desinformação. Ibrahim Zaher tem todo o direito de discordar do prefeito Cláudio Ferreira, questionar projetos e votar contra propostas encaminhadas pelo Executivo. O que não pode passar sem contestação é a divulgação de uma interpretação alarmista como fato consumado, sem a necessária demonstração técnica de que o texto realmente produzirá o efeito anunciado.
Em Rondonópolis, onde a discussão sobre a carga tributária tem impacto direto na vida da população e na atividade econômica, o mínimo que se espera dos representantes eleitos é seriedade na apresentação dos fatos. O contribuinte não pode ficar refém de disputas políticas travadas por meio de vídeos e declarações que distorcem o conteúdo das propostas legislativas.
Ao final, o episódio deixou uma situação constrangedora para Ibrahim Zaher: a denúncia de aumento generalizado do IPTU, feita antes da sessão, acabou contestada publicamente por colegas de Parlamento e pela própria Secretaria Municipal de Fazenda. Mais do que um embate entre vereadores, o caso representa um alerta sobre o uso irresponsável das redes sociais por agentes públicos. A fiscalização é indispensável à democracia, mas não autoriza transformar suposições em verdades nem explorar o temor da população para produzir repercussão política.






