Quando a paixão política toma o lugar da boa gestão
Foto:
A política deveria ser, antes de qualquer coisa, um instrumento para melhorar a vida das pessoas. Governar significa administrar recursos que pertencem à sociedade, estabelecer prioridades, prestar contas e buscar resultados. Parece simples. Mas, quando a paixão política passa a ocupar o lugar da razão, aquilo que deveria ser uma discussão sobre eficiência, responsabilidade e interesse público transforma-se em uma disputa entre torcidas.
Tenho acompanhado com preocupação esse fenômeno. Pessoas que antes conseguiam conversar, discordar e continuar convivendo passaram a tratar qualquer divergência política como uma ofensa pessoal. A posição política deixou de ser apenas uma opinião sobre a maneira como o Estado deve ser administrado e, para muitos, passou a fazer parte da própria identidade.
Quando isso acontece, o diálogo fica cada vez mais difícil. O cidadão deixa de perguntar se determinada política pública funciona, quanto custa, quais resultados entrega ou se existe uma alternativa melhor. A primeira pergunta passa a ser outra: quem está propondo? É do meu lado ou do lado contrário?
Esse comportamento é extremamente prejudicial para a sociedade porque governos precisam ser avaliados pelos resultados que apresentam. Na administração de uma empresa, não existe espaço para administrar eternamente com discursos. No fim do mês, os números aparecem. É preciso saber quanto entrou, quanto saiu, onde houve desperdício, quais investimentos deram resultado e o que precisa ser corrigido. Na administração pública deveria existir a mesma preocupação com eficiência, responsabilidade fiscal, planejamento e indicadores de desempenho.
O problema começa quando a gestão é substituída pela campanha eleitoral permanente. Em vez de governar e, no momento adequado, apresentar os resultados à população, algumas estruturas políticas passam praticamente todo o mandato reproduzindo a lógica de um palanque. Cada anúncio precisa virar conteúdo, cada conflito precisa produzir engajamento e cada decisão passa a ser analisada também pelo potencial de mobilizar uma base política. A fronteira entre administrar e fazer campanha vai desaparecendo.
Nesse ambiente, a polarização é combustível. Quanto maior a divisão entre “nós” e “eles”, mais fácil manter grupos permanentemente mobilizados. O adversário deixa de ser alguém com uma visão diferente sobre a administração pública e passa a ser apresentado como inimigo. E quando uma sociedade começa a enxergar quem pensa diferente como inimigo, perdemos justamente aquilo que uma democracia mais precisa: capacidade de conversar.
Existe ainda outro problema que merece atenção. Uma população com dificuldade de acesso à educação, informação de qualidade e conhecimento sobre o funcionamento do Estado torna-se muito mais vulnerável à manipulação política. Fiscalizar um governo exige compreender minimamente orçamento, prioridades públicas, responsabilidades de cada Poder e aquilo que realmente pode ou não ser atribuído a determinado governante.
As redes sociais ampliaram esse desafio. Os algoritmos tendem a nos manter próximos de conteúdos semelhantes àquilo em que já acreditamos. Aos poucos, cada grupo passa a viver dentro da própria realidade, recebendo diariamente argumentos que confirmam suas convicções e rejeitando automaticamente qualquer informação que venha do outro lado.
É uma espécie moderna de dependência política. Mudaram as ferramentas, mudaram os meios de comunicação e mudou a velocidade com que as mensagens circulam, mas permanece um princípio antigo: quanto menos capacidade crítica tiver o cidadão, mais fácil será conduzir sua percepção da realidade.
Por isso acredito que precisamos recuperar algo básico: política não pode ser religião e político não pode ser tratado como ídolo. Nenhum governante deveria receber um cheque em branco simplesmente porque pertence ao grupo político com o qual alguém se identifica.
Quem administra dinheiro público precisa ser fiscalizado. Quem governa precisa apresentar resultados. Quem promete precisa ser cobrado. E isso vale independentemente de partido, ideologia ou preferência eleitoral.
Rondonópolis, cidade onde morei e pela qual mantenho profundo respeito e consideração, assim como qualquer município brasileiro, precisa de cidadãos capazes de olhar além das paixões momentâneas. Precisamos discutir desenvolvimento, emprego, infraestrutura, saúde, educação, segurança, responsabilidade fiscal e qualidade dos serviços públicos.
A democracia amadurece quando conseguimos discordar sem transformar o outro em inimigo. E a administração pública melhora quando substituímos a paixão cega pela fiscalização, o discurso pelos resultados e o palanque permanente pela responsabilidade de governar.
No final das contas, governos passam, partidos mudam e eleições terminam. A cidade permanece. E é ela que deveria estar sempre acima das disputas políticas.
*Túlio Silva – Empresário e ex-morador de Rondonópolis





