Fávaro deixou Margareth Buzetti sem emendas: machismo ou concentração de poder?
Margareth revelou que assumiu a cadeira no Senado, mas ficou sem acesso aos recursos controlados pelo titular; episódio coloca em dúvida o discurso de valorização feminina na política Foto: Gustavo Arakaki/TVCA
Uma resposta direta da candidata ao Senado Margareth Buzetti (PP) produziu um dos momentos mais constrangedores para Carlos Fávaro (PSD) durante o debate entre candidatos ao Senado por Mato Grosso, realizado na manhã de quinta-feira (10) pelo Primeira Página e pela Centro América FM. Questionada por José Medeiros (PL), Margareth confirmou que não teve oportunidade de indicar emendas parlamentares enquanto substituía Fávaro no Senado.
Medeiros lembrou que outros suplentes, ao assumirem o mandato durante o afastamento dos titulares, exerceram plenamente as prerrogativas do cargo e participaram da indicação de emendas. Em seguida, perguntou diretamente a Margareth se ela havia conseguido destinar ao menos uma emenda durante o período em que ocupou a cadeira.
“Não, eu não tive direito a emendas porque o senador Carlos Fávaro voltou e pegou as emendas”, respondeu Margareth.
A declaração expôs uma situação politicamente incômoda. Margareth assumiu as responsabilidades do mandato, participou de votações, representou Mato Grosso e respondeu publicamente pela cadeira, mas, conforme revelou no debate, não teve acesso a uma das principais ferramentas de atuação de um senador: a indicação de recursos para municípios, instituições e projetos.
O fato de Margareth ser mulher torna o episódio ainda mais grave. Em um ambiente político no qual partidos e candidatos repetem discursos sobre a necessidade de ampliar a participação feminina, uma empresária experiente chegou ao Senado, ocupou formalmente uma das cadeiras de Mato Grosso, mas permaneceu sem autonomia para participar da distribuição das emendas.
Isso foi machismo ou apenas concentração de poder? A pergunta precisa ser feita porque valorizar a participação feminina não significa apenas permitir que uma mulher ocupe temporariamente uma cadeira ou apareça em fotografias institucionais. Significa compartilhar decisões, orçamento, influência e poder político.
Não se trata de defender qualquer privilégio para Margareth por ela ser mulher. A questão é exatamente o contrário: enquanto senadora em exercício, ela deveria ter recebido tratamento compatível com as responsabilidades assumidas. Se homens que substituíram titulares puderam exercer o mandato plenamente, por que Margareth não teve a oportunidade de indicar sequer uma emenda?
A resposta apresentada no debate indica que Fávaro se afastou da cadeira, mas não abriu mão do controle político e orçamentário ligado ao mandato. Na prática, Margareth ficou com as obrigações, a exposição e as cobranças, enquanto o titular preservou para si uma das partes mais poderosas da função parlamentar.
A situação esvazia qualquer discurso de incentivo ao protagonismo feminino. Quando chegou o momento de dividir poder de verdade, a mulher permaneceu em posição secundária. Margareth pôde ocupar a cadeira, votar e responder pelo mandato, mas não teve participação no destino dos recursos.
A contradição ganha ainda mais peso porque Margareth não é uma figura decorativa nem alguém sem experiência administrativa. Empresária e representante de importantes setores econômicos de Mato Grosso, ela chegou ao Senado com condições de participar das decisões, mas, de acordo com sua própria declaração, não teve autonomia sequer para indicar uma emenda.
Com uma pergunta objetiva, Medeiros levou a própria suplente a expor uma fragilidade que Fávaro terá dificuldade para explicar durante a campanha. Se Margareth estava no exercício do mandato, por que não recebeu espaço para participar das decisões sobre os recursos? Se a participação feminina é realmente valorizada, por que o poder permaneceu concentrado nas mãos do titular?
A imagem deixada pelo episódio é politicamente devastadora: Margareth foi considerada senadora para assumir responsabilidades, votar e enfrentar cobranças públicas. Quando chegou o momento de controlar as emendas, Fávaro retomou as rédeas e deixou sua suplente de mãos vazias.





