Rodrigo da Zaeli lança 200 mil santinhos com Janaína para o Senado e escanteia Medeiros
Material do candidato a deputado federal do PL indica a emedebista como primeira opção ao Senado, deixa a segunda escolha em branco e amplia o racha dentro da própria legenda Foto: Reprodução
O racha dentro do PL de Mato Grosso ganhou um novo e emblemático capítulo nesta semana. Candidato a deputado federal, Rodrigo da Zaeli (PL) colocou nas ruas 200 mil santinhos de campanha em que pede voto para a deputada estadual Janaína Riva (MDB) ao Senado, enquanto simplesmente deixa de fora o nome do deputado federal José Medeiros (PL), candidato da própria legenda a uma das duas vagas de senador em disputa nas eleições deste ano.
O material chama atenção não apenas pela presença de Janaína, mas principalmente pela forma como a escolha foi apresentada ao eleitor. O santinho traz Rodrigo da Zaeli ao lado do candidato a deputado estadual Neles do Operário e reproduz o modelo de votação na urna eletrônica, apresentando Janaína Riva, número 150, como primeira opção para o Senado. Na sequência aparecem Wellington Fagundes (PL), candidato ao Governo de Mato Grosso, e Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.
Na segunda vaga destinada ao Senado, porém, não aparece nenhum candidato. O espaço foi deixado em branco, identificado apenas como “segunda opção”. José Medeiros, número 222, não é citado, apesar de ser correligionário de Zaeli e disputar o Senado pelo PL.
É justamente esse detalhe que aumenta o peso político do episódio. Não se trata de um material limitado a apenas alguns candidatos ou cargos. O santinho apresenta ao eleitor uma sequência praticamente completa de votação e reserva espaço para as duas escolhas ao Senado. Mesmo assim, enquanto Janaína aparece expressamente como primeira opção, a segunda vaga permanece vazia.
Com uma tiragem declarada de 200 mil exemplares, a opção dificilmente passa despercebida dentro da campanha. Trata-se de material produzido para circulação em larga escala e destinado justamente a orientar o eleitor na hora do voto. Ao colocar uma candidata do MDB para o Senado e deixar em branco o espaço que poderia ser ocupado por Medeiros, Zaeli transforma uma preferência política em um gesto público com potencial para aumentar ainda mais a temperatura dentro do PL.
O movimento se torna ainda mais ruidoso porque ocorre em meio a uma campanha marcada pela convivência de diferentes forças políticas no mesmo palanque estadual. A coligação Coração da Gente reúne MDB, PL, NOVO e a federação PRD/Solidariedade em torno da candidatura de Wellington Fagundes ao Governo de Mato Grosso. Dentro dessa mesma composição estão Janaína Riva e José Medeiros, ambos na disputa pelo Senado.
A aliança permite a convivência formal entre os dois candidatos ao Senado, mas não elimina a disputa direta por votos. Pelo contrário. Cada grupo trabalha para consolidar seus candidatos e, dentro do PL, a orientação partidária é para que seus filiados peçam votos para Medeiros. É nesse ponto que a decisão de Rodrigo da Zaeli ganha contornos ainda mais delicados.
Zaeli não apenas deixou de colocar o candidato do próprio partido no santinho. Fez o movimento inverso ao reservar uma das posições mais importantes do material para Janaína Riva, candidata do MDB e adversária direta de Medeiros na corrida pelas duas cadeiras de Mato Grosso no Senado Federal.
Na prática, os 200 mil santinhos colocam no papel uma divisão que poderia permanecer restrita às conversas e articulações de bastidores. A partir do momento em que um candidato do PL imprime e distribui em larga escala um material pedindo voto para uma candidata de outra legenda e deixa de fora o nome do postulante ao Senado de seu próprio partido, a divergência passa a ser apresentada diretamente ao eleitor.
O episódio também atinge um ponto sensível para o PL: a relação com o bolsonarismo. José Medeiros construiu sua trajetória política recente como um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro em Mato Grosso. Ex-senador e atualmente deputado federal, ele tenta retornar ao Senado e conta com o apoio político de Bolsonaro, que já citou nominalmente Medeiros ao tratar da disputa pelas vagas de senador no Estado.
Por isso, o gesto de Zaeli provoca ruído em duas frentes. Primeiro porque contraria a orientação do próprio partido ao não trabalhar pela candidatura de Medeiros. Segundo porque se distancia do desenho defendido pelo principal líder político do campo bolsonarista, justamente em uma eleição na qual a ligação com Bolsonaro é utilizada como um dos principais ativos eleitorais pelos candidatos do PL.
Para Medeiros, o episódio vai além da perda do apoio individual de um correligionário. São 200 mil peças de campanha circulando pelo Estado nas quais seu nome e seu número não aparecem, enquanto uma concorrente direta recebe indicação expressa de voto. Em uma eleição em que o eleitor terá direito a escolher dois candidatos ao Senado, esse tipo de material tem peso ainda maior, já que serve como guia para a composição completa do voto.
O espaço em branco para a segunda opção talvez seja o ponto mais simbólico de todo o episódio. Havia lugar no santinho para outro candidato ao Senado. Mesmo assim, Rodrigo da Zaeli preferiu não indicar José Medeiros. Em vez do número 222, aparece apenas a expressão “segunda opção”, deixando o eleitor livre para preencher a escolha.
A movimentação escancara também as dificuldades provocadas pela construção de uma ampla coligação para a disputa estadual. Wellington Fagundes consegue reunir em seu palanque candidatos e partidos com interesses distintos na eleição proporcional e na corrida ao Senado, mas a união em torno do Governo não significa alinhamento automático nas demais disputas. O caso de Rodrigo da Zaeli mostra que essa divisão chegou ao interior do próprio PL.
Enquanto Medeiros tenta consolidar o voto bolsonarista e transformar o apoio partidário em força eleitoral para retornar ao Senado, Janaína amplia sua rede de apoios para além das fronteiras do MDB. Ter um candidato a deputado federal do PL distribuindo 200 mil santinhos com seu nome é uma demonstração concreta dessa capacidade de avançar sobre bases que, em tese, deveriam trabalhar por um adversário.
No meio desse fogo cruzado está Rodrigo da Zaeli. Ao escolher Janaína, ignorar Medeiros e deixar a segunda vaga ao Senado em aberto, o candidato a deputado federal produziu um dos materiais de campanha mais simbólicos até agora sobre as divisões internas da aliança governista.
Se o objetivo era apenas apresentar ao eleitor suas escolhas pessoais, o santinho cumpriu a missão. Politicamente, porém, a mensagem foi muito além. Em plena campanha, um candidato do PL colocou 200 mil vezes nas ruas o nome de Janaína Riva e, nas mesmas 200 mil oportunidades, preferiu deixar em branco o espaço onde poderia estar José Medeiros.





