A virada começou bem antes da prorrogação
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A discussão sobre a prorrogação da votação merece esclarecimentos, mas é equivocado concentrar nela toda a explicação para a vitória de Lula. Todos os levantamentos até agora divulgados apontam que os votos registrados depois das 17 horas ficaram muito abaixo da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro. A aritmética, portanto, não sustenta que aquelas duas horas tenham produzido a virada. A virada começou bem antes da prorrogação.
Para compreender o resultado das urnas, é preciso olhar para as semanas que antecederam o segundo turno. É evidente que medidas como redução de tributos sobre combustíveis, perdão de dívidas, sinalização de benefícios para microempreendedores e promessa de ampliação de pagamentos a estudantes constituíram uma ofensiva de forte apelo popular.
Ou seja, medidas concretas e expectativas de alívio financeiro passaram a ocupar o centro da campanha.
Minha leitura é de que esse pacote de bondades teve peso decisivo na recuperação eleitoral de Lula. É evidente que, pra quem enfrenta dívidas e renda apertada, a promessa de um benefício imediato pode pesar mais que eventuais preocupações com as contas públicas do país. É inegável que Lula conseguiu transformar as dificuldades do eleitor em vantagem política.
Agora, qual será o custo desse pacote de bondades? E quanto do que foi anunciado será efetivamente cumprido? O dinheiro distribuído pelo governo vem da sociedade, inclusive de quem trabalha e produz sob uma carga tributária pesada.
A oposição precisa enfrentar essa realidade. Atribuir a derrota apenas à prorrogação da votação desvia a atenção da força eleitoral das medidas anunciadas por Lula entre o primeiro e o segundo turno. A virada deve ser examinada a partir do que mudou a disposição dos eleitores ao longo da campanha. E, nessa análise, o uso político do orçamento e das promessas de benefícios merece lugar central.






