Cláudio Ferreira manda recado após eleição, cobra reflexão dentro do PL e não descarta mudança no comando do partido em MT
Em entrevista exclusiva ao NMT na Assembleia Legislativa, prefeito de Rondonópolis afirma que resultado das urnas mostrou quem estava conectado com a vontade popular, evita confronto direto com Ananias Filho e defende união de prefeitos pela eleição de Flávio Bolsonaro no segundo turno Foto: Reprodução
O prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira (PL), fez uma avaliação contundente do resultado das eleições de 2026, defendeu uma reflexão profunda sobre os caminhos adotados pelo Partido Liberal em Mato Grosso e deixou aberta a possibilidade de mudanças no comando estadual da legenda. Em entrevista concedida na manhã desta terça-feira (13) à equipe do NMT – Notícias de Mato Grosso, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), o gestor evitou ataques pessoais, mas deixou um recado claro às lideranças partidárias que se distanciaram da vontade do eleitorado durante o processo eleitoral.
A declaração ocorre em meio às consequências do racha que marcou o PL mato-grossense durante a campanha. De um lado, o grupo ligado ao presidente estadual da sigla, Ananias Filho, e ao senador Wellington Fagundes, que construiu uma aliança com o MDB de Janaína Riva. Do outro, lideranças como Cláudio Ferreira, o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, e o deputado estadual Gilberto Cattani, que se posicionaram contra a composição e defenderam o projeto político de Otaviano Pivetta ao Governo de Mato Grosso.
Questionado diretamente pelo NMT sobre qual ala do PL saiu vencedora das urnas e se Ananias Filho teria sido o grande derrotado da disputa interna, Cláudio Ferreira preferiu não personalizar o resultado, mas afirmou que as eleições deram uma resposta inequívoca sobre os caminhos escolhidos pelas lideranças políticas.
“Eu não vou dizer qual PL saiu ganhando. Eu vou dizer que o povo, que as pessoas saíram ganhando. Nós não podemos ignorar o resultado das urnas. Os resultados falam por si só, o que estava errado, o que estava certo, o que as pessoas esperavam das suas lideranças”, declarou.
O prefeito aprofundou a crítica ao afirmar que ocupantes de cargos públicos precisam compreender que o mandato pertence à população, e não aos interesses individuais de quem exerce o poder. Para ele, a perda dessa conexão pode produzir consequências eleitorais diretas.
“Não importa se você é um vereador, um deputado, um prefeito, um senador, nem mesmo presidente. Você nunca deve perder de vista que representa alguém, que representa a vontade de alguém. O mandatário não representa a si próprio. Quando você perde a conexão com a vontade das pessoas, você termina colhendo prejuízo eleitoral”, afirmou.
A manifestação ganhou ainda mais peso quando o prefeito foi questionado sobre a possibilidade de substituição de Ananias Filho na presidência estadual do PL. Sem defender abertamente a saída do dirigente, Cláudio Ferreira sustentou que o momento exige reavaliação, diálogo e reposicionamento político.
“O nome já fala. É partido, não é inteiro. Tem ideias de um jeito, ideias de outro. Eu, particularmente, convivo muito bem com o contraditório. Não tenho dificuldade. Você nunca me viu, nem no momento mais crítico, agredindo qualquer liderança que seja. Eu não agrido os meus pares. Quando discordo, ataco as ideias”, explicou.
Ao ser novamente provocado sobre a necessidade de mudanças na direção partidária, o prefeito não fechou as portas para uma renovação. “Mudanças sempre acontecem. O sistema representativo, a democracia, preconiza isso, a mudança. Se não fosse necessária a mudança, não tinha eleição de quatro em quatro anos. O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”, declarou.
Embora tenha evitado anunciar qualquer articulação para substituir Ananias Filho, a resposta demonstra que Cláudio Ferreira considera legítima uma discussão sobre o futuro da direção estadual do PL. O prefeito também defendeu que o diálogo não fique restrito aos integrantes da legenda, afirmando que este é o momento de conversar “dentro e fora” do partido.
A entrevista também revelou o envolvimento direto do prefeito de Rondonópolis na mobilização de lideranças municipais para o segundo turno da eleição presidencial. Cláudio Ferreira confirmou participação em um encontro de prefeitos organizado em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e elogiou a iniciativa do governador Otaviano Pivetta, do empresário Odílio Balbinotti e do presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi.
Para o prefeito, a participação dessas lideranças demonstra que a preocupação com o futuro político do país não terminou com a eleição estadual. Ele destacou que prefeitos convivem diariamente com as dificuldades da população, especialmente nas áreas de saúde, assistência social e geração de empregos, e por isso teriam condições de contribuir para o debate nacional.
Cláudio também fez duras críticas à situação econômica brasileira, atribuindo ao atual modelo de governo a perda do poder de compra das famílias. Segundo ele, a dificuldade enfrentada pelos trabalhadores para manter as despesas domésticas demonstra a necessidade de uma mudança na condução do país. O prefeito pediu aos eleitores que apoiam Flávio Bolsonaro que conversem com familiares e amigos sobre a disputa presidencial, defendendo a mobilização individual como instrumento importante da campanha.
Em outro momento da entrevista, o prefeito direcionou sua atenção à administração de Rondonópolis e cobrou compromisso dos parlamentares eleitos com o financiamento dos serviços públicos municipais. Ao ser questionado sobre a relação que pretende manter com a nova bancada estadual, Cláudio Ferreira afirmou que pretende procurar os deputados e solicitar formalmente a destinação de emendas parlamentares ao município.
“Rondonópolis precisa de recurso. Precisa de pouca conversa, pouco discurso e mais efetividade, entrega de verdade. Eu vou oficiar todo mundo. Enviem suas emendas, seus recursos. Nós precisamos disso”, declarou.
O prefeito argumentou que Rondonópolis assumiu responsabilidades que ultrapassam os limites do município, especialmente na saúde pública, atendendo pacientes de 19 municípios da região sudeste de Mato Grosso. Segundo ele, essa condição exige uma participação financeira mais efetiva dos governos estadual e federal, além do comprometimento dos representantes políticos eleitos pela região.
Como exemplo de parceria administrativa, Cláudio destacou a ampliação do contrato da Santa Casa de Misericórdia de Rondonópolis, que passou de aproximadamente R$ 94 milhões para R$ 268 milhões anuais, mediante acordo firmado com o Governo do Estado. O novo modelo de financiamento prevê ampliação de consultas, exames, cirurgias e atendimentos especializados, com expectativa de aproximadamente 300 mil procedimentos por ano.
O prefeito atribuiu ao governador Otaviano Pivetta a sensibilidade administrativa necessária para viabilizar o investimento, ressaltando que a decisão de fortalecer uma estrutura hospitalar existente representa, em sua avaliação, uma alternativa mais eficiente do que simplesmente construir novas unidades sem assegurar recursos para o funcionamento.
“Não é só fazer um hospital. Você tem que operacionalizar esse hospital. Muitas vezes, o custeio fica mais caro que a própria construção. Para você ter um hospital funcionando bem, precisa de gente qualificada, de equipe, de uma cultura organizacional. Você não consegue isso do dia para a noite”, explicou.
Cláudio Ferreira lembrou que a Santa Casa possui mais de cinco décadas de história, equipes estruturadas e experiência acumulada no atendimento hospitalar. Embora reconheça que existem problemas a serem corrigidos, afirmou que o reforço financeiro permitirá ampliar a capacidade de atendimento sem a necessidade de começar do zero a organização de uma nova unidade.
A entrevista exclusiva ao NMT mostrou um prefeito disposto a participar das discussões sobre o futuro do PL em Mato Grosso, mas que procura evitar um rompimento público com as lideranças partidárias. Ao mesmo tempo, Cláudio Ferreira deixou evidente que considera o resultado das urnas um parâmetro fundamental para avaliar os acertos e erros das articulações políticas realizadas durante a campanha.
Sem pedir diretamente a saída de Ananias Filho, o prefeito encerrou sua avaliação com uma reflexão sobre a alternância de poder e a necessidade de renovação das lideranças. A declaração, feita justamente quando foi questionado sobre uma eventual mudança na presidência estadual do PL, acrescenta um novo elemento ao debate interno de uma legenda que saiu das eleições com representação parlamentar expressiva, mas também marcada por divergências sobre os rumos adotados em Mato Grosso.
Para Cláudio Ferreira, a mensagem central das urnas deve servir tanto aos vencedores quanto aos derrotados: nenhum dirigente político pode se considerar maior do que a vontade dos eleitores que pretende representar.






