• 12 de outubro de 2026
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ESVAZIAMENTO SEMÂNTICO

Esvaziamento semântico: quando chamar alguém de fascista substitui o argumento

Há alguns anos, o termo se banalizou e passou a ser usado para caracterizar qualquer pessoa que não vota em Lula
Foto: Ilustrativa

A palavra “fascista” parece ter ganhado um novo significado no vocabulário de parte da militância de esquerda nos últimos anos. O termo, que historicamente identifica os adeptos do fascismo, passou a ser usado com tanta frequência e banalização contra adversários políticos que, em determinadas situações, parece ter se transformado em uma espécie de cumprimento para quem discorda de suas ideias.

Hoje, basta alguém manifestar apoio à direita, criticar Lula ou declarar que pretende votar em Flávio Bolsonaro para correr o risco de ser chamado de fascista. Em situações de confronto político, há quem utilize o termo até mesmo contra pessoas que simplesmente demonstram insatisfação com determinadas pautas da esquerda. Nos movimentos sociais, o grito de ordem “Fascista, recua! Fascista, recua!” se tornou conhecido em manifestações de setores progressistas. Mas será que todo mundo que não vota em Lula é fascista? A resposta é simples: não.

O esvaziamento do significado da palavra

Na linguística, esse fenômeno pode ser analisado a partir do conceito de esvaziamento semântico. Isso acontece quando uma palavra é repetida e banalizada, a ponto de seu significado original perde força ou passa a ser empregado em contextos muito diferentes do seu sentido real.

O fascismo surgiu na Itália, sob a liderança de Benito Mussolini, e consolidou um regime ditatorial, antidemocrático e marcado pela repressão aos opositores. O regime eliminou liberdades políticas e perseguiu adversários. Portanto, fascismo não é simplesmente discordar de alguém, defender ideias conservadoras ou votar em um candidato de direita. Quando o termo passa a ser usado indiscriminadamente contra qualquer pessoa que não concorde com Lula, há o risco de esvaziar seu significado histórico e político. Se todos são fascistas, independentemente de suas ideias e de suas ações, como distinguir aqueles que realmente defendem práticas autoritárias daqueles que apenas possuem uma preferência eleitoral diferente? Esse é o problema da banalização: a palavra perde sua capacidade de identificar com precisão aquilo que originalmente deveria descrever.

O eleitor de Flávio Bolsonaro é necessariamente fascista?

Imagine um cidadão que decidiu votar em Flávio Bolsonaro porque está insatisfeito com a economia, discorda da política fiscal do governo Lula, considera excessivos os gastos públicos ou acredita que a oposição apresenta propostas melhores para a segurança pública. Esse eleitor pode estar certo ou errado em suas avaliações. Suas escolhas podem ser criticadas, questionadas e confrontadas com dados. Isso faz parte do debate democrático. Mas nenhuma dessas razões, por si só, transforma alguém em fascista.

O eleitor também pode rejeitar Lula por motivos pessoais, por discordâncias ideológicas ou simplesmente porque prefere outro projeto de país. Em uma democracia, ninguém precisa justificar seu voto de acordo com as expectativas de um partido ou de uma militância. É perfeitamente legítimo questionar as propostas de Flávio Bolsonaro, assim como é legítimo questionar as propostas de Lula. O que não parece razoável é substituir a discussão sobre ideias por um rótulo que desqualifica antecipadamente seu opositor.

Rotular o adversário pode ser uma estratégia de comunicação

O uso repetitivo de determinadas palavras também pode produzir efeitos na maneira como as pessoas percebem a realidade. Imagine que o jornalista Walisson Junior, por exemplo, chegue a um ambiente e passe a ser chamado de “vascaíno” por várias pessoas. Mesmo que os frequentadores não o conheçam, a repetição pode fazer com que associem seu nome à torcida do Vasco. Com o tempo, alguns poderão reproduzir essa informação sem sequer saber se ela é verdadeira.

Na política, esse mecanismo pode ser ainda mais poderoso. Se um eleitor é chamado repetidamente de fascista, parte do público pode começar a associá-lo ao autoritarismo antes mesmo de conhecer suas ideias, suas posições ou as razões que o levaram a escolher determinado candidato.

Quando o rótulo impede o debate

O problema mais grave dessa prática é que ela pode encerrar uma discussão antes mesmo de começar. Se uma pessoa manifesta uma opinião contrária à esquerda e recebe como resposta o rótulo de fascista, a conversa deixa de girar em torno dos argumentos apresentados. O opositor passa a ser tratado como alguém moralmente inaceitável, e não como um cidadão com quem se pode discordar. Nesse cenário, já não importa o que a pessoa pensa sobre economia, segurança pública, saúde, educação ou gastos governamentais. O rótulo ocupa o lugar do debate. Uma sociedade democrática precisa permitir que ideias sejam questionadas sem que seus defensores sejam automaticamente excluídos da conversa.

A comunicação também constrói a percepção da realidade

A comunicação tem um papel fundamental na maneira como interpretamos o mundo. As palavras escolhidas para descrever pessoas, acontecimentos e grupos influenciam a percepção do público, especialmente quando são repetidas por figuras públicas, lideranças políticas e movimentos organizados.

Isso não significa que a comunicação possa transformar qualquer mentira em verdade para sempre. Significa que a repetição de determinadas narrativas pode influenciar julgamentos, consolidar estereótipos e dificultar a análise crítica dos fatos.

A democracia não exige que todos concordem. Exige que as divergências possam ser expressas, discutidas e resolvidas dentro das regras democráticas.

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