Possível candidatura de Getúlio Viana reacende forças históricas e ameaça projeto eleitoral de Léo Bortolin
Articulação do ex-prefeito pelo Republicanos reposiciona lideranças empresariais de Primavera do Leste e expõe fragilidade estrutural do MDB no município, que só se consolidou após a saída forçada de Getúlio da cena política Foto: Reprodução
A possível candidatura do ex-prefeito Getúlio Viana (Republicanos) a deputado estadual começa a provocar um redesenho profundo no tabuleiro político de Primavera do Leste e do Sul de Mato Grosso, com impacto direto sobre o projeto eleitoral do também ex-prefeito Léo Bortolin (MDB), atual presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM). Nos bastidores, a avaliação predominante entre lideranças políticas e empresariais é que o retorno de Getúlio ao jogo eleitoral tem potencial para reorganizar forças que estavam apenas momentaneamente reagrupadas em torno de Bortolin, e não propriamente consolidadas por identidade política ou histórico partidário.
Diferentemente do que muitos discursos públicos sugerem, o MDB não construiu, historicamente, uma base eleitoral própria sólida em Primavera do Leste. A ascensão de Léo Bortolin ao poder municipal ocorreu em um contexto muito específico: a cassação de Getúlio Viana em 2017, quando Bortolin era presidente da Câmara e assumiu a Prefeitura de forma interina, no chamado mandato-tampão. Sem Getúlio no cenário, Léo disputou a eleição seguinte praticamente sem um adversário político de peso, venceu e passou a exercer dois mandatos consecutivos como prefeito, somando cerca de sete anos à frente do Executivo municipal, período que lhe permitiu agregar empresários, lideranças comunitárias e setores estratégicos da cidade, mas em um ambiente de ausência do principal líder histórico do município.
O ponto central que hoje inquieta os bastidores é que Getúlio Viana nunca deixou de ser referência real de poder em Primavera do Leste. Mesmo afastado da política institucional por decisão judicial, seu capital simbólico permaneceu intacto entre empresários, produtores rurais, dirigentes de entidades de classe e lideranças tradicionais da cidade. Para esse grupo, Getúlio sempre foi visto como um gestor sério, firme, com perfil desenvolvimentista e capacidade de articulação econômica, responsável por ciclos de crescimento urbano, atração de investimentos e fortalecimento institucional do município.
Fontes próximas a esse núcleo empresarial avaliam que, se Getúlio entrar oficialmente na disputa estadual, boa parte desse eleitorado que hoje orbita em torno de Léo tende a retornar automaticamente ao seu campo de influência original, não por ruptura pessoal com Bortolin, mas por identidade histórica e confiança política. O risco para o atual presidente da AMM não está apenas na divisão de votos, mas na exposição de uma fragilidade estrutural: sua força política nasceu e se consolidou num vácuo de poder deixado por Getúlio, e não de uma hegemonia construída organicamente pelo MDB. Com Getúlio novamente ativo, esse vácuo deixa de existir.
Na prática, isso significa que Léo Bortolin pode enfrentar, pela primeira vez, um cenário real de competição direta pelo mesmo eleitorado estratégico, especialmente entre empresários do setor imobiliário e comercial, produtores ligados ao agronegócio, lideranças institucionais e dirigentes de entidades, além de eleitores de perfil conservador e desenvolvimentista que sempre formaram o núcleo duro da política local. No plano estadual, a situação se torna ainda mais sensível, já que para garantir uma vaga na Assembleia Legislativa será necessário atingir um quociente eleitoral elevado, disputando espaço com dezenas de candidatos fortes em todo o Estado, o que torna qualquer perda de densidade regional um fator de alto risco.
Já para Getúlio, o movimento é inverso. Sua entrada na corrida estadual não parte do zero, mas de um capital político acumulado ao longo de décadas, com alto grau de reconhecimento, respeito institucional e memória positiva de gestão, o que o coloca em posição de vantagem simbólica no momento em que o eleitor começa a reconstruir suas referências. Entre empresários e lideranças mais antigas da cidade, a expressão mais recorrente nos bastidores é que a possível candidatura de Getúlio representa o retorno do dono do tabuleiro, não no sentido de imposição, mas de reposicionamento natural de forças que estavam apenas temporariamente deslocadas.
Nesse contexto, a maior ameaça ao projeto de Léo Bortolin não vem de fora, mas do próprio passado político de Primavera do Leste, que volta a se impor como fator decisivo na definição do futuro. Isso porque o próprio Getúlio Viana sustenta, em conversas reservadas, que sua cassação em 2017 teve articulação direta de Léo nos bastidores, justamente para abrir caminho à sua ascensão ao comando da Prefeitura e à disputa eleitoral seguinte. Essa leitura pessoal de Getúlio transforma a possível candidatura em algo que vai além de um projeto político: assume contornos de acerto de contas histórico. Se confirmada, a disputa de 2026 pode ser marcada não apenas por estratégia eleitoral, mas por um componente de enfrentamento direto, capaz de levar Getúlio a entrar na corrida “com a faca nos dentes”, decidido a retomar o protagonismo e, ao mesmo tempo, inviabilizar o principal herdeiro do poder que se consolidou a partir de sua queda.





