Ulysses tem quase 1 milhão de seguidores, mas continua abaixo de 1% nas pesquisas
Ex-deputado aposta novamente no discurso contra PT e esquerda, acumula enorme audiência nas redes sociais, mas ainda enfrenta dificuldade para transformar engajamento digital em intenção de voto Foto:
Muito barulho, muita repercussão nas redes sociais e uma audiência que impressiona quando medida pelo número de seguidores. Quando a régua passa para as pesquisas eleitorais, porém, a realidade de Ulysses Moraes (Podemos) é bem diferente. O ex-deputado estadual, que tenta retornar à Assembleia Legislativa de Mato Grosso, chega à reta final da campanha ainda abaixo de 1% nos levantamentos espontâneos, apesar de se aproximar da marca de 1 milhão de seguidores no Instagram.
Na pesquisa mais recente do Instituto Data Index, realizada entre os dias 17 e 20 de setembro, Ulysses apareceu com 0,87% das citações espontâneas. O número chama ainda mais atenção quando observado dentro do próprio Podemos. Max Russi registrou 2,62%, Beto Dois a Um 1,75% e Alessandra Ferreira 1,43%, enquanto Sargento Casarin, Fabinho Tardin, Rafaela Fávaro e Aldecino Lopo apareceram com 1,06%. Como os percentuais estão dentro da margem de erro, as diferenças individuais devem ser observadas com cautela, mas a fotografia geral mostra Ulysses ainda distante de transformar sua enorme exposição digital em lembrança espontânea proporcional entre os eleitores.
E não se trata de uma fotografia isolada. Na Data Index realizada entre o final de agosto e o início de setembro, Ulysses tinha 0,94%. Em levantamento da Percent Brasil, apareceu com 0,2%, enquanto outra pesquisa, da MT Dados, registrou 0,3%. Não é tecnicamente possível afirmar crescimento ou queda a partir de diferenças tão pequenas e de pesquisas com metodologias e amostras distintas. O ponto em comum entre elas, entretanto, é evidente: até agora, o candidato permanece abaixo de 1% ou muito próximo disso nas pesquisas espontâneas.
É justamente aí que surge a principal contradição da candidatura. Ulysses construiu uma verdadeira máquina de comunicação nas redes sociais. Seus vídeos alcançam milhares de pessoas, provocam comentários, compartilhamentos e repercussão. Boa parte dessa estratégia está baseada no enfrentamento ideológico, especialmente nos ataques ao PT, à esquerda e às principais figuras desse campo político. É um conteúdo que funciona para gerar engajamento e alimentar uma audiência já identificada com esse discurso, mas que, pelo menos até agora, não aparece convertido na mesma proporção em intenção de voto.
Falar mal do PT pode render visualização. Atacar a esquerda pode gerar compartilhamento. Repetir diariamente aquilo que uma parcela do eleitorado já pensa pode produzir milhares de curtidas. O problema é que eleição exige algo além da bolha das redes sociais. Para conquistar voto, principalmente de quem ainda não decidiu em quem votar, o candidato precisa apresentar serviço, propostas e razões concretas para receber novamente a confiança do eleitor.
Ulysses já teve essa oportunidade. Ele foi eleito deputado estadual em 2018 e ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa entre 2019 e 2022. Durante o mandato apresentou proposições, indicações e requerimentos e levantou bandeiras como redução da verba indenizatória, votação aberta para a Mesa Diretora e mudanças relacionadas a impostos e serviços públicos. Apesar dessa atividade parlamentar formal, sua imagem política acabou ficando muito mais marcada pelo enfrentamento ideológico e pelo discurso contra a esquerda do que por projetos ou entregas que tenham se transformado em uma marca eleitoral capaz de impulsionar seu retorno ao Parlamento.
Em 2022, Ulysses deixou a disputa estadual e tentou chegar à Câmara dos Deputados, mas não conseguiu se eleger. Agora retorna à disputa por uma cadeira na Assembleia e parece insistir numa fórmula semelhante àquela que marcou boa parte de sua trajetória política: muito confronto, provocação, crítica ao PT e produção intensa de conteúdo para as redes sociais.
Só que seguidor não é eleitor, visualização não é voto e engajamento não significa necessariamente força eleitoral. A diferença entre esses dois mundos fica evidente quando um político próximo de 1 milhão de seguidores continua aparecendo abaixo de 1% nas pesquisas espontâneas. A audiência existe e é gigantesca. O desafio de Ulysses é provar que ela existe também fora da tela do celular.
Na reta final, talvez esteja justamente aí a principal cobrança sobre sua candidatura. Depois de já ter passado quatro anos pela Assembleia Legislativa, Ulysses não precisa apenas convencer o eleitor de que é contra o PT ou contra a esquerda. Isso seus seguidores já sabem. Precisa mostrar o que fez quando teve mandato, o que pretende fazer caso volte a ocupar uma cadeira e por que merece novamente o voto do mato-grossense. Até agora, as pesquisas mostram que todo o barulho produzido nas redes ainda não encontrou resultado eleitoral equivalente.





