Bets: o negócio que está destruindo famílias e comprando consciências
Foto: Durante muitos anos, assistimos às propagandas de cigarro dominarem a televisão brasileira. Artistas, médicos e esportistas apareciam sorrindo, vendendo um hábito que, mais tarde, descobrimos custar milhões de vidas. Hoje, olhando para trás, é difícil compreender como aquilo pareceu normal. Temos a impressão de que estamos repetindo o mesmo erro, apenas com uma nova embalagem.
As bets conquistaram espaço em praticamente todos os ambientes. Estão nos uniformes dos clubes, nas transmissões esportivas, nos intervalos comerciais, nas redes sociais, nos podcasts e na fala de influenciadores que transformaram a aposta em sinônimo de diversão e oportunidade. A mensagem é sempre sedutora: qualquer um pode ganhar. Mas quase ninguém mostra que esse mercado só cresce porque a maioria perde.
Não estamos falando apenas de dinheiro. Estamos falando de famílias desestruturadas, pessoas endividadas, jovens desenvolvendo dependência, trabalhadores comprometendo o salário antes mesmo de pagar as contas e de brasileiros que enxergam na aposta uma falsa esperança de mudar de vida. Estudos já apontam bilhões de reais em impactos sociais e econômicos associados ao jogo problemático, incluindo depressão, perda de produtividade e custos relacionados a suicídios. É um problema de saúde pública que cresce na mesma velocidade em que cresce o faturamento das plataformas.
Na última sexta-feira, o próprio governo federal endureceu as regras para a publicidade das bets. As propagandas passarão a exibir advertências de que apostar faz perder dinheiro, pode causar dependência e não é uma forma de investimento. Também ficaram proibidas campanhas que prometam lucro fácil, enriquecimento rápido ou utilizem a autoridade de especialistas e comentaristas para estimular apostas. Quando o próprio Estado reconhece a necessidade de impor alertas dessa natureza, fica evidente que não estamos diante de um simples entretenimento, mas de uma atividade com potencial de causar danos relevantes à sociedade.
É justamente por isso que precisamos discutir a responsabilidade de todos os envolvidos nessa engrenagem. As plataformas querem lucro. Isso faz parte do capitalismo. Mas quem aceita dinheiro para emprestar credibilidade a esse mercado também faz uma escolha. Influenciadores digitais, jogadores de futebol, clubes esportivos e veículos de comunicação recebem milhões para convencer a população de que apostar é algo moderno, divertido e inofensivo. Não é.
Ninguém pode ser responsabilizado pelas decisões individuais de quem aposta. Mas também ninguém pode fingir que a influência não produz consequências. Quem vive da confiança do público deveria refletir se vale a pena colocar sua imagem a serviço de uma atividade que já provoca endividamento, sofrimento psicológico e dependência em milhões de brasileiros. A credibilidade é um patrimônio. Vendê-la para estimular o vício talvez seja um dos negócios mais caros que uma sociedade pode fazer.
Também cabe uma reflexão sobre o papel da imprensa. O jornalismo existe para informar, fiscalizar e alertar a população sobre riscos. Quando empresas de comunicação passam a depender financeiramente da publicidade das bets, cria-se um conflito ético que merece ser debatido. O dinheiro da propaganda jamais pode ser mais importante do que o compromisso com o interesse público.
Daqui a alguns anos, talvez olhemos para esse período da mesma forma que hoje olhamos para as antigas propagandas de cigarro estreladas por artistas e atletas. A diferença é que, desta vez, ninguém poderá dizer que não sabia dos riscos. Os alertas estão sendo feitos por pesquisadores, profissionais da saúde, economistas e, agora, pelo próprio governo federal.
As bets não estão apenas comprando espaços publicitários. Estão comprando consciências, silêncios e a falsa sensação de normalidade. E quando uma sociedade passa a lucrar com o desespero, com a ilusão e com a dependência de seu próprio povo, o prejuízo nunca fica restrito ao bolso. Ele atinge valores, destrói famílias e compromete o futuro de uma geração inteira.
* Chico Oliveira é jornalista e apresentador do NMT Conversa






