Leandro Viegas diz que excesso de chuvas em Mato Grosso pressiona safra, atrasa colheita e pode gerar perdas bilionárias
CEO da Sell Agro afirma que volume acima da média compromete soja e milho safrinha, afeta a qualidade dos grãos e reduz a margem do produtor, embora o estado ainda sustente produtividade próxima de recordes Foto: Assessoria
O excesso de chuvas registrado nas últimas semanas nos principais polos agrícolas do Brasil, especialmente no Centro-Oeste, já acende um sinal de alerta no campo e impõe novos desafios ao desempenho da safra em Mato Grosso. No maior produtor de grãos do país, o impacto não está necessariamente na quebra generalizada da produção, mas na combinação perigosa entre atraso operacional, perda de qualidade dos grãos, pressão sobre a logística e redução da margem dos produtores. A avaliação é do empresário Leandro Viegas, CEO da Sell Agro, que fez um diagnóstico técnico do cenário e apontou que, embora o estado ainda deva sustentar produtividade elevada, os prejuízos localizados podem atingir cifras bilionárias.
Segundo Viegas, o problema central está no fato de as precipitações terem avançado justamente sobre uma etapa decisiva do calendário agrícola. “Os principais polos agrícolas do Brasil, especialmente na região Centro-Oeste, o volume recente ficou entre 90 e 200 milímetros em poucas semanas. O acumulado mensal é de 150 a 200, então é considerado acima das médias para as regiões. E esse excesso ele prejudica, prejudica muito o desenvolvimento inicial das lavouras e impacta diretamente na colheita da soja e no plantio do milho safrinha, causando o atraso operacional e a perca da janela ideal do plantio”, afirmou.
Na prática, o excesso de chuva interrompe o ritmo da colheita da soja e empurra para frente o plantio do milho safrinha, etapa que, em Mato Grosso, tem peso estratégico no resultado consolidado da temporada. Quando essa janela se estreita, o produtor passa a trabalhar sob pressão, tentando aproveitar curtos períodos de estiagem para não comprometer ainda mais o cronograma da lavoura. É justamente nesse ambiente que a tecnologia, o manejo e a estrutura operacional passam a fazer diferença.
Viegas observa que o setor tem reagido com experiência e planejamento, numa demonstração de como o agro mato-grossense se tornou mais profissionalizado e resiliente nos últimos anos. “O produtor ele sempre fica muito apreensivo, né? Mas ele utiliza aí de algumas metodologias para poder se livrar disso. Vamos lá. Por exemplo, o escalonamento do plantio para diminuir o risco climático. Usa também da tecnologia de aplicação e manejo de solo para manter a alta produtividade. Janelas operacionais intensivas, aproveitando o curto período de estiagem, se ele tiver equipamento e tecnologia, ele consegue fazer. E o monitoramento constante da qualidade do grão”, explicou.
Ainda assim, o empresário reconhece que há um limite técnico quando a chuva persiste exatamente no momento da retirada da produção do campo. “Mesmo assim, quando o excesso de chuvas coincide com a colheita, o controle fica limitado”, pontuou. É nessa fase que os efeitos deixam de ser apenas operacionais e passam a atingir também a qualidade final do produto, com reflexos diretos no bolso do produtor. Grãos com umidade elevada, avarias e descontos comerciais acabam corroendo parte da rentabilidade, mesmo quando a produtividade por hectare permanece em patamar elevado.
Ao falar sobre o tamanho dos prejuízos, Viegas adota cautela e evita tratar o cenário como uma tragédia generalizada, mas deixa claro que os danos não podem ser subestimados. “O impacto vai ser moderado, ele não vai ser catastrófico. Há registros de redução pontual na perca da qualidade do grão. Em alguns cenários, a estimativa indica uma perca que pode chegar de 10 a 15% em áreas específicas”, afirmou. Apesar dessas perdas pontuais, ele ressalta que Mato Grosso ainda mantém fôlego para sustentar uma safra robusta. “Porém, no agregado, o Mato Grosso ainda mantém a produtividade próxima dos recordes, na faixa de 64 a 66 sacas por hectare”, acrescentou.
O ponto mais delicado, segundo o CEO da Sell Agro, é que a conta do prejuízo não se resume ao volume efetivamente colhido. O impacto mais profundo aparece na soma entre redução de produtividade em áreas afetadas e descontos aplicados sobre a qualidade do grão entregue. “Ainda não há um compilado final para a gente saber o que aconteceu. O maior impacto que a gente vê não é só em volume, é também na qualidade do grão, que impacta aí no desconto com umidade, com grãos avariados. Considerando a perca da produtividade mais os descontos comerciais, o impacto pode representar bilhões de reais para o estado de Mato Grosso, principalmente nas regiões mais afetadas”, explicou.
Mesmo com esse quadro, Viegas avalia que a força produtiva de Mato Grosso ajuda a absorver parte da turbulência. “Esse prejuízo ele vai ser diluído porque parte da safra apresenta uma alta produtividade. Então o produtor está preparado para esse impacto aí que não é tão catastrófico”, disse. Em outras palavras, o estado perde em eficiência e margem em algumas regiões, mas consegue compensar parcialmente esse efeito com escala, tecnologia e produtividade acima da média nacional.
Essa leitura também reforça uma característica histórica do agronegócio mato-grossense: a capacidade de reagir às adversidades sem perder competitividade estrutural. Para Viegas, a base tecnológica do estado e a experiência acumulada pelos produtores funcionam como uma espécie de amortecedor diante dos eventos climáticos. “O Mato Grosso hoje é o maior produtor nacional de grão. Ele perde às vezes com a chuva, mas ele ganha na escala. Por outro lado, o estado tem alto nível tecnológico e principalmente a resiliência dos produtores. Então, mesmo com a adversidade, deve-se manter uma produtividade próxima dos recordes, o que reduz o impacto relativo frente a outras regiões do país”, afirmou.
No balanço final, a mensagem do empresário é clara: a safra não deve desabar, mas a conta do clima chegará de forma pesada em muitas propriedades. “O problema não foi a falta de produção, mas sim o excesso de chuva num momento errado. Isso afeta a logística, a qualidade e, principalmente, o custo. Não necessariamente vai derrubar a safra, mas vai reduzir a margem”, concluiu.
O episódio reforça uma realidade cada vez mais presente no agro brasileiro. Produzir muito já não basta. Em um ambiente de riscos climáticos crescentes, quem conseguir preservar eficiência, qualidade e rentabilidade em meio à instabilidade terá vantagem. E, em Mato Grosso, onde a escala impressiona e a produtividade ainda se sustenta em níveis próximos de recorde, o desafio agora deixa de ser apenas colher bem. Passa a ser, sobretudo, colher com margem.






