Pesquisas eleitorais antecipadas distorcem o debate, fabricam favoritismos e inflacionam bolhas políticas em Mato Grosso
Levantamentos feitos fora do período eleitoral alimentam ilusões, servem a interesses específicos e criam cenários que simplesmente não existem na vida real, segundo analistas. Foto: Ilustração
As pesquisas eleitorais que inundam o debate público nos últimos dias em Mato Grosso têm um ponto em comum: todas chegam cedo demais, dizem de menos e atrapalham o que realmente importa. Para analistas políticos ouvidos pela reportagem, esses levantamentos funcionam como uma vitrine de ilusões, produzindo retratos frágeis, facilmente manipuláveis e incapazes de antecipar qualquer coisa relacionada ao ambiente de 2026.
O grande problema, afirmam, é que pesquisas feitas antes do jogo começar se transformam em fábricas de bolhas, inflando nomes hiperexpostos e reduzindo artificialmente atores que sequer entraram em campo. Números divulgados agora refletem apenas quem tem barulho, quem tem mídia e quem já está se movimentando há meses — e não quem terá densidade política quando as cartas forem efetivamente distribuídas.
Analistas dizem que o momento é uma espécie de “janela de enganação”: grupos políticos tentando pautar o debate por meio de pesquisas divulgadas como se fossem previsões, quando, na prática, são apenas recortes oportunistas de um cenário inconcluso. A engrenagem administrativa do Estado ainda vai mudar, alianças ainda vão se rearranjar e novas forças vão emergir assim que o calendário virar. Nenhum desses elementos aparece nos levantamentos atuais — e nem poderia.
Por isso, especialistas recomendam zero empolgação e zero desespero. Para eles, acreditar em números divulgados agora é o mesmo que tentar prever o fim de um campeonato olhando apenas para o aquecimento dos times. “Essas pesquisas não medem intenção de voto; medem exposição momentânea e interesses de quem está pagando a conta”, afirma um analista ouvido pela reportagem.
Outro ponto sensível é a forma como esses levantamentos são utilizados. Sem identificação clara de metodologia, sem cruzamento de dados públicos e sem contexto político real, pesquisas antecipadas servem principalmente para construir narrativa, criar ambiente de favoritismo, amedrontar adversários e tentar empurrar o eleitor para uma percepção fabricada. Na prática, viram instrumento estratégico — e não indicador técnico.
A história recente confirma o alerta: pesquisas feitas muito antes do período eleitoral raramente acertam alguma tendência. Quando o jogo vira, viram junto. Quando alianças mudam, desaparecem. Quando o poder muda de mãos, tudo se reorganiza — e ninguém lembra do que foi “previsão” meses antes.
A leitura geral dos analistas é simples: o cenário eleitoral real só existe quando todos os atores entram no tabuleiro, o que só acontecerá no início do ano que vem. Até lá, levantamentos antecipados devem ser considerados pelo que realmente são: peças de pressão política, instrumentos de marketing e tentativas de manipular o debate público antes da hora.





