“Tribunal do crime”: Polícia indicia seis integrantes de facção por homicídio e ocultação de cadáver em São José do Xingu
Vítima foi executada após ser submetida a videochamada com líderes da organização; mesmo sem o corpo, investigação usou provas digitais para reconstituir crime e prender cinco dos envolvidos; penas podem chegar a 41 anos de prisão Foto:
A Polícia Civil de Mato Grosso concluiu a segunda fase da Operação Midnight e indiciou seis integrantes de uma facção criminosa pela morte de Marcos José Vieira Lima, conhecido como “Borel”. Os investigados responderão pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa.
O inquérito teve início a partir do desaparecimento da vítima, registrado na noite de 25 de agosto de 2025, na cidade de São José do Xingu. Com o aprofundamento das diligências ao longo de seis meses, a Polícia Civil reuniu um robusto conjunto probatório que confirmou tratar-se de um homicídio praticado em contexto de atuação organizada, seguido da ocultação do corpo.
As investigações, conduzidas pelo delegado Onias Estevam Pereira Filho, utilizaram oitivas testemunhais, diligências de campo, levantamentos de inteligência e, principalmente, provas técnicas obtidas por meio de afastamento de sigilo telemático e telefônico. A análise dos dados permitiu reconstituir com precisão a dinâmica do homicídio.
A vítima foi atraída para um imóvel utilizado pela facção na região central da cidade e morta entre 20h18 e 20h36 do mesmo dia em que desapareceu. Segundo a investigação, a execução foi determinada por uma liderança da organização criminosa no âmbito do chamado “tribunal do crime” — mecanismo interno usado por facções para julgar e punir integrantes.
De acordo com o delegado, a vítima teria “traído” a facção em ocorrência anterior em que ambos foram presos por tortura. Durante a ação criminosa, Borel foi submetido a uma videochamada com outros integrantes da facção, que acompanharam o ato em um típico ritual de “decretação” antes da execução.
Após o homicídio, os envolvidos iniciaram uma segunda etapa do plano criminoso: a ocultação do corpo. A vítima foi transportada em uma motocicleta e enterrada em local ainda não identificado.
As investigações demonstraram, com base em dados técnicos, que ao menos três dos indiciados participaram diretamente da desova do cadáver, incluindo a obtenção de ferramentas e deslocamentos compatíveis com a escavação da cova.
Mesmo sem a localização do corpo, a Polícia Civil conseguiu comprovar a materialidade do crime por meio do corpo de delito indireto, recurso admitido pela legislação processual penal e pela jurisprudência dos tribunais superiores.
Ao final do inquérito, cinco dos seis indiciados foram presos durante a Operação Midnight 2, enquanto um segue foragido da Justiça. O delegado Onias Estevam destacou a importância da ação:
“Foi uma resposta do Estado de Mato Grosso à sociedade xinguense, com a retirada das ruas desses perigosos criminosos.”
De acordo com o delegado, as penas somadas dos delitos atribuídos aos investigados podem chegar a 41 anos de prisão. O relatório final aponta que o crime foi cometido de forma premeditada, com divisão de tarefas e extrema violência, evidenciando a atuação estruturada da facção criminosa na região.
A Polícia Judiciária Civil reafirma seu compromisso com o enfrentamento qualificado às facções criminosas e a promoção da segurança pública no Estado de Mato Grosso, destacando que a elucidação do caso demonstra a eficiência das técnicas modernas de investigação, especialmente no uso de provas digitais e inteligência policial.





