Metanol desviado para Primavera do Leste aparece em esquema bilionário de adulteração de combustíveis
Investigações revelam que notas fiscais apontavam empresas químicas de Primavera do Leste como destino final do produto, mas cargas eram entregues irregularmente em São Paulo Foto: Reprodução
Uma abordagem da Polícia Rodoviária Federal (PRF) a um caminhão-pipa em maio de 2023 foi o ponto de partida para revelar um dos maiores esquemas de adulteração de combustíveis do país. A operação, deflagrada nesta quinta-feira (28) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, Receita Federal e Polícia Federal, descobriu que parte do metanol importado pelo Porto de Paranaguá, no Paraná, era desviado para abastecer ilegalmente postos de combustíveis da Grande São Paulo.
De acordo com a investigação, o produto tinha como destino declarado empresas químicas em Primavera do Leste, no Mato Grosso, mas nunca chegava ao município. Para simular a legalidade, eram emitidos “tickets de pesagem” falsos que comprovariam a passagem da carga pela BR-163, embora os caminhões descarregassem em postos como o Autoposto Bixiga, localizado na região central de São Paulo.
O promotor do Gaeco de Guarulhos, Yuri Fisberg, explicou que a descoberta ocorreu de forma circunstancial: “Com a apreensão de um caminhão-pipa carregado de metanol, que deveria seguir para o Mato Grosso, identificamos que, na verdade, o produto estava sendo entregue em um posto na Grande São Paulo. A partir disso, a Polícia Federal abriu uma linha de investigação que resultou em denúncias por organização criminosa e lavagem de dinheiro”, afirmou da tribuna.
R$ 46 bilhões em movimentações
As apurações também identificaram a atuação da fintech BK Bank, apontada como “banco paralelo” utilizado pelo grupo criminoso. Segundo o Ministério Público, a instituição recebeu mais de 10,9 mil depósitos em espécie entre 2022 e 2023, movimentando mais de R$ 61 milhões fora do sistema bancário formal. No total, a organização teria gerido cerca de R$ 46 bilhões em transações financeiras por meio de empresas de fachada, fundos de investimento e distribuidoras de combustíveis.
A Receita Federal estima que mais de 10 milhões de litros de metanol foram desviados apenas nesse núcleo da organização. Em alguns casos, até 50% da gasolina vendida em postos paulistas era composta pela substância.
Operação nacional
A força-tarefa mobilizou policiais e promotores em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Mais de 350 pessoas físicas e jurídicas são investigadas.
No caso de Primavera do Leste, embora o município não tenha recebido de fato o produto, seu nome foi utilizado como fachada para validar a operação criminosa, o que reforça a necessidade de investigação sobre o possível envolvimento de empresas locais.
As autoridades destacam que o esquema desvendado não apenas gerava prejuízos bilionários ao fisco, mas também colocava em risco a segurança de consumidores ao alterar a composição da gasolina de forma irregular.